quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A Profetiza do Dragão

Crônicas das Terras Mortas 

E naquele tempo eis que chega à vila, vindo dos desertos do oriente, na sombra do Verão, uma mulher estranha, com vestes escarlates de algodão vulgar, braços e pescoço e tornozelos nus o que indicava que não devia passar de uma pária. Seus cabelos eram da cor de sangue, e seus olhos de um negro profundo e inescrutável. Seus lábios carnudos tinham cor de cereja e brilhava como tal. Era intrigante aquela figura indigente com ares de nobreza. E ela chegou na praça central, com olhares curiosos a acompanhar cada passo seu. Algo nela atraia a todos. E chegando ao templo do Deus Morto ela disse: 

“Podem sentir os ventos soprando cada vez mais quente? O Dragão está despertando e este é a sua respiração. Ele dorme debaixo da Montanha, mas não dormirá por mais tempo. Sua irá abaterá sobre vosso povo, pois eis que cometerão abominações diante Daqueles Que Foram. Não irei falar da cobiça de riqueza acima das necessidades de vossos irmãos. Tampouco irei discorrer sobre a fome de sentimentos verdadeiros de vossas árias almas ou da sede de conhecimento de vossas estéreis mentes. Quero abrir-lhes os olhos para as ânsias de vossos Espíritos. Para a fagulha de divindade que habita vosso ser. Para o Destino que deve ser cumprido. Mas vós tens sido indolentes e menosprezam os dons do Espírito...”

Antes que pudesse continuar, um homem da nobreza trajando uma toga azul da mais pura seda e jóias e adornos e glifos apresentou-se diante da mulher a censurou: 

“Cale-se mulher, pois não estás em seu juízo perfeito, tudo o que dizes beira a loucura, e deve ser mais uma fanática adoradora dos Deuses Mortos ou até mesmo do Deus Assassinado - não há diferença, Todos abandonaram esta terra de alguma forma. Em nosso meio não há mais espaço para superstições ou fanatismo desde quando. É sabido por todos, principalmente pelos Especialistas das Rochas, que não há Dragão dormente nenhum sob a montanha, e que o fogo que ela expele é somente mais um evento natural e...” 

Antes que pudesse prosseguir foi a vez da mulher retomar seu discurso:

“Pobre daqueles que possuem olhos, enxergam, mas não vêem. Pobre daqueles que possuem ouvidos e escutam, mas não ouvem. Pobre daqueles que tem língua e falam, mas nada dizem. Pois é disso que estou tentando alerta-lhes. Vossos espíritos estão imersos em trevas. Quem de vocês pode ouvir o canto dos anjos sobre nossas cabeças com seus hinos de louvor à vida? Ou os lamúrios dos demônios que se esgueiram as pedras dos templos profanados? Ou o choro daqueles que não nasceram. Quem escuta a voz do vento? Quem vê aqueles que se movem por entre às arvores e por entre as correntezas dos rios? Os reinos além do Mar e do Céu e da Terra. Irmãos como podem viver em tamanha ignorância. Pois vos digo, eu vejo o dragão acordando sobre a montanha. E vejo sua ira vertendo-se em fogo sobre os ímpios.”

Neste momento o homem nobre insistiu em seus insultos:

“És louca. Insisto para que não ouçam o que esta desvairada estás a dizer-vos”

E a mulher rebate com faíscas em seu olhar: 

“Contam os Sábios, que há muitas e muitas eras atrás, antes da Era do Deus Assassinado, antes da Era do Salvador, e muito mais atrás havia uma mulher a quem chamavam de louca, pois eis que ela profetizou a derrocada de seu reino, mas, ninguém lhe deu ouvidos. A loucura e a sabedoria partilham do mesmo leito. E as pessoas só sabem diferenciá-las quando já é tarde demais. Que vossos espíritos possam acordar junto ao despertar do Dragão.”