sábado, 14 de abril de 2012

Lamento pelos Mortos

"Deve-se consideração aos vivos; aos mortos apenas se deve a verdade."
Voltaire

"Lament",
Edward Coley Burne Jones
Talvez um dia eu tire um tempo para lamentar pelos meus mortos. Talvez acenda uma vela branca alva como uma pomba ou me vista de negro como a noite mais profunda. Talvez faça oferendas. Talvez profira uma prece. Ou talvez blasfeme contra eles. Todas estas coisas serão possíveis. 
Os deuses testemunham a meu favor do quanto sempre tive que lutar por mim mesmo, chorar pela minha própria morte todos os dias quando no oeste o sol se refugiava e o quanto ainda luto para saber onde pertenço, para lembrar-me onde minha alma está.
Nunca tive tempo para chorar pelos mortos. nunca tive muitos motivos para chorar pelos vivos. Motivos suficiente sempre tivera para chorar por mim mesmo. 
Mas estas lágrimas raramente veem, ela estão enterradas na sombra do meu âmago assim como os frios cadáveres jazem no silêncio fúnebre de suas covas. 
Muito deles, os mortos, tivera que enterrá-los em meu coração ainda que estivessem vivos. Muitos deles, os mortos, continuam vivos em minha memória como se a terra sagrada não possuem seus corpos sob seu manto. Muitos deles ainda são valas a céu aberto. Muitos deles já jazem a sete palmos para mim mesmo com os primeiros raios de sol do oriente a esquecer-lhes a face em cada manhã do outono que chega.
Talvez um dia eu tire um tempo para pensar sobre todas estas coisas. Talvez leve flores para alguns túmulos. Talvez chore até o sono secar-me as lágrimas. Mas até lá, até que isso me faça sentido, continuo com minhas lágrimas presas. 
Talvez agora eles estejam aqui me assistindo e lendo palavras tão sinceras. 
Dizem que a morte nos tornam melhores. E nisso eu creio. Mas não é motivo suficiente para esquecer, perdoar, divinizar ou exaltar.
Dizem que a paz dos mortos depende da paz dos vivos. E isso talvez seja motivo suficiente de deixar para trás o que ao passado pertence.
Talvez isso que esteja escorrendo pela minha face seja uma lágrima. Mas a questão é: ela é para eles ou para mim mesmo ou para ambos de nós?


ars musicam (este post fora elaborado ao som de:


The Veil of Queen Mab
Hexperos

Ano de Lançamento: 2010
Estilos: Contemporary Classical; Experimental; Goth-Rock



4 comentários:

  1. eu não sei.. como eu já comentei no meu blog, eu tenho sim uma relação muito especial com os meus mortos, nós em casa acreditamos que nós somos nossos próprios ancestrais voltados em vida, e somos todos ligados e renascidos dentro da própria família. portanto somente trabalhando com os mortos, é que podemos nos descobrir, aproveitar melhor nossas bênçãos e resolver nossas antigas maldições. alimentando nossas raízes, é que podemos cuidar das nossas próprias frondes...

    se meus antepassados tiveram problemas? tiveram.. se eu tive problemas com meus mortos? tive... mas sei que eu sou eles, e eles são eu também...

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    1. Também creio na reencarnação na família, minha mãe mesmo me diz que me pareço muito com um avô dela, até mesmo na maneira de falar.
      Tenho consciência também que o karma nos une numa linhagem e estas são as lições que temos que aprender com nossos antepassados estão ligadas a nosso Destino. Infelizmente a prática é bem mais difícil do que a teoria e muitas vezes é melhor protelar algumas questões para uma fase na qual estivermos mais preparados para lidar com certas questões. Invejo sinceramente aqueles que convivem com seus parentes de sangue numa relação de verdadeira unidade. Mas para mim, não nesta vida. A solidão também possui ensinamentos valiosos e há um tempo para tudo em na eternidade de nossa alma.

      Seja sempre bem vindo e esteja sempre as vontade para compartilhar seus pensamentos, tenha certeza que eles serão motivos de reflexão. Sorte e Fortuna sempre.

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    2. ô, me sinto sempre bem vindo aqui. gosto do teu blog, sou o Israel Martins da caverna. ;)

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  2. São poucos aqueles que conseguem misturar doçura com beleza. Foi o que fizeste nesse texto, e qualquer tentativa de comentá-lo já está fadada ao fracasso. Perfeito, impecável!

    E sim, te entendo perfeitamente. No meu altar tenho uma vela que representa o fogo de Vesta, o fogo dos meus Ancestrais. Todos os rituais partem daquele fogo e essa chama é a última a ser apagada. Mas quando procuro rezar à eles, procuro pensar em toda a minha linhagem desconhecida, mítica, aqueles que vieram antes de mim sem os quais eu não estaria aqui. Tenho muitos problemas de relacionamento com minha família próxima (pai, avós etc.) e as vezes sinto uma certa hipocrisia nessa minha prática. Eu não consigo reverenciá-los com amor (ou o que entendemos por amor superficialmente), mas trato meus familiares com respeito e reverência. Felizmente ou não, não consigo mais do que isso. E isso me impede de dar prosseguimento em várias jornadas na Bruxaria Tradicional. Enquanto não tiver isso bem resolvido comigo mesmo (acredito que estou no caminho, mas ainda longe) prefiro limitar meus passos feiticeiros dessa forma.

    As melhores bênçãos de Vesta para vc.

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