quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Andarilhos e Peregrinos

O que sou? Um devoto de deuses mais antigos que o tempo através de uma ritualística pessoal - herege e livre de poderes seculares. Aquele que chama espíritos no limiar da meia-noite. Que conjura a maldição, a justiça e a fúria de vingança mais infernal sobre um inimigo e a benção, a proteção e a sorte mais resplandecente a um irmão. Aquele que roga às estrelas sob o manto da noite. Aquele que conversa com as plantas e pede emprestadas as suas virtudes. Aquele que quando fecha os olhos, acorda. Aquele que forja a sua própria realidade pelos mais luxuriosos desejos e pelas mais sublimes vontades. Que traça sigilos no ar e ouve a Voz do vento. Sou bruxo. Mas que bruxo  sou eu?
Um andarilho, pois eis que não ando pelos caminhos tortuosos guiado pela Luz do Chifre de um Mestre. Caminho tateando pela escuridão sendo guiado pela Luz das estrelas tão somente e muitas vezes, infelizmente, nem percebo que já estou num outro caminho.
Um andarilho, pois eis que não tive a honra de herdar uma Tradição, não possuo uma bússola diante dos muitos rumos que a jornada pode tomar e a Palavra não me livra da Mentira. 
Um andarilho, pois minha herança perdeu-se no tempo e a Tradição é senão uma sombra, uma esperança, um tesouro a ser descoberto e sem rumo vagueio pela estrada. Possuo apenas minha alma e sua sabedoria ancestral de muitas vidas para ligar os elos rompidos.
Um andarilho, pois eis que não recebi litania de como conjurar e adorar Os Poderosos. Nem mesmo sei a certo Quem eles são. Seus nomes secretos, seus sacrifícios prediletos, seus domínios, suas Virtudes. Mas possuo um genius, um daimon, que sutilmente sussurra em meu ouvido instruções estranhas e mitologias proibidas.
Um andarilho, pois eis que não tenho irmãos juramentados com os quais poderia de seus conhecimentos compartilhar do mesmo cálice e beber o Elixir de suas experiências. Mas tenho livros e escritos, cálices vazios que tentam, pela forma, instruir sobre o conteúdo secreto que poderiam conter, mas que não o podem por este meio limitado.
Um andarilho, apenas um andarilho, vivendo sob o véu de uma profecia a se realizar...

3 comentários:

  1. Irmão estou sem fôlego...
    Li e Reli, me achei aquie me perdi outra vez..e fico a me perguntar oq eu sou?

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  2. De uma coisa podemos ter certeza nobre Irmão - seremos sempre os malditos, os condenados, os da raça Indomada forjados pelo Fogo das Estrelas. Embora a benção e a Fortuna nos acompanhem, somente aqueles que possuem a marca enxergam-nas - para os outros, somos apenas pobres pecadores e iludidos.

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  3. Nion,

    também me identifiquei com o seu texto. Provavelmente um hino para os andarilhos solitários. Muito bom!

    Abraços.

    Leonardo.

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