quinta-feira, 14 de julho de 2011

Práticas de Magia Popular e Cristã de Família

Não ousaria e tampouco teria a petulância de dizer que pertenço a uma família de bruxos onde a tradição fora passada de geração em geração (embora há um poder inerente a linhagem passado pelo sangue). Contudo, seguramente reconheço algumas práticas e crenças de magia popular e magia cristã em vários ensinamentos transmitidos à minha mãe e desta a mim, daqueles que curiosa e respeitosamente ela chama (assim como muitas pessoas do interior paulista chama seus avós e bisavós) de "os antigos".  Infelizmente estas práticas são poucas e eu imagino o quanto de sabedoria magica tenha se perdido com o passar das gerações. Estes conhecimentos não eram ostentados por seus portadores - humildes camponeses- e, muitos da própria família os chamavam de superstições ou pecado, e só eram transmitidos pela necessidade ou como contos folclóricos.
Sinto que devo registrar estas práticas para não perder o pouco que sobrevivera deste legado mágico, herético, folclórico, supersticioso ou qualquer outro nome que lhes caibam.

Ângelus (1859), de Jean François Millet

O Canto da Coruja e o Anjo da Morte
É comum na sabedoria popular a premonição através de um augúrio pelo "canto" da coruja,  um canto que preconiza a morte. Uma vez indagamos a minha mãe que corujas sempre cantam e nem sempre morre alguém,e  ela disse que nem toda vez que a coruja canta ela “traz” a morte - que é apenas um canto especial, em suas palavras, "doído, triste, um choro". Sempre que pousa uma coruja em nosso telhado ou no de outrem e ela "canta a morte" minha mãe reconhece o anjo negro estendendo sua foice sobre a família da casa em que ela pousara. Não demora dias para o Ceifador estender suavemente beijar o escolhido.
Não raro, ainda, ela chega dizendo que fulano tem os dias curtos, pois ela vira um caixão ao lado da pessoa ou que está com gosto férreo de sangue na boca. Várias mortes já foram avisadas por ela dessa maneira e, às vezes, junto à visão ela diz que sua boca fica com gosto férreo de sangue.

O Leite da Virgem
Ela conhece um "benzimento" especial que aprendera com os "antigos" invocando o poder do "leite da Virgem Maria". Esta prática é sua maior especialidade e ela a utiliza em mim desde que me conheço por gente. Quando me benze, sinto um poder muito grande desprendendo de suas mãos e percorrendo todo o meu corpo.
Este benzimento é feito nossas costas ou testa da pessoa e envolve um encantamento e um rito. Ela chama pelo nome da pessoa, que terá que responder "senhora". Então ela sussura: "Não tenho nada pra te oferecer, tenho apenas o leite da Virgem Maria para te dar e te proteger". Muda-se as palavras finais do encanto de acordo com a necessidade.
Percebam que esta prática - assim como algumas outras "cristãs" que ela nos conta - não possui o objetivo principal de "adoração", mas, sobretudo, tem um objetivo prático geralmente envolvendo proteção ou cura.

O Credo para Benção e Maldição
A prática a seguir é uma prática cristã reconhecidamente herege que já a ouvi ensinando para muitas pessoas para ser usada contra inimigos. Se uma pessoa esta te perturbando ou tenha inveja e "olho-gordo", reze o "Creio em Deus Padre" de baixo pra cima (invertido) nas costas da pessoa três vezes que isso afasta o mal.
Ainda usando a "virtude" do Creio em Deus Padre, ela benze recitando-o enquanto "cruza" com as suas mãos as costas da pessoa. Ela diz que isso exorciza, fecha o corpo e protege. Sempre lembro-me dela nos dizendo que nem sequer imaginamos o poder imenso que o Creio em Deus Padre possui. Mais uma vez, o foco da oração passa longe da finalidade devocional.

Os Espíritos
Os relatos a seguir são comuns no interior paulista e também faz parte do legado de família. Em relação aos espíritos, minha mãe sempre nos ensinou várias coisas. Que nunca devemos responder quando chamam o nosso nome antes de ter a certeza que realmente alguém vivo é quem está nos chamamos. Que quando estamos comendo e o alimento cai de nossas mãos é porque algum espírito - geralmente de um parente falecido - está com vontade daquela comida e então devemos colocar um pedaço para ele. Que nunca devemos acender vela para espíritos dos mortos dentro de casa. E que, quando necessitássemos de algo, podíamos orar e oferecer velas (fora de casa sempre) às Sete Almas Benditas, às almas daqueles que morreram de fome, de sede, afogadas, queimadas, e outras que não me lembro - e provavelmente nem ela.

Mel e Sal
Sempre quando quiser aproximar duas pessoas, pegue duas velas brancas e escreva os nomes das pessoas nelas (um nome em cada vela) de cima pra baixo, então as envolva em mel ou em açúcar e coloque-as para queimar. Isso vai “adoçar” a relação entre as duas pessoas. Se, pelo contrário, você quiser afastar duas pessoas, escreva os nomes nas velas de baixo pra cima e jogue sal antes de queimá-las.



Àrvores que Realizam Desejos
A próxima prática é uma reconhecidamente pagã. Quando precisássemos de alguma coisa, era para pedirmos a uma árvore – isso era feito abraçando-a e contando para a mesmo nosso desejo. Certa vez, ela conseguiu a venda de uma casa amaldiçoada na qual que vivíamos pedindo para a árvore plantada em nossa calçada. Em prazo de pouco tempo a venda fora acertada. Ela ensinava também que podíamos pedir à Lua igualmente, mas nunca, ao Sol pois podíamos morrer queimados.

Apesar de todas estas práticas e ensinamentos hereges e mágicos, além de outros que me escapam à memória, minha mãe (assim como seus antepassados) se considera "Católica", e tem sincera devoção à Jesus, aos Santos e a Virgem Maria. E este é um pequeno retrato de fragmentos da magia popular camponesa nascida em berço pagão mediterrâneo, abençoada, amaldiçoada e assimilada pelos seguidores do Cristo e espalhada pelas terras de Vera Cruz.

6 comentários:

  1. Adorei teu post, Nion! Me fez pensar sobre a minha própria família, que é do interior de GO. Lembrei agora de coisas que minha avó e minha mãe me diziam quando era pegueno, mas que nunca tinha dado muita atenção. Além do mais, minha mãe diz que minha bisavó foi uma parteira,vou procurar saber mais a respeito. Ultimamente tenho sentido necessidade de recuperar minhas raízes... ^^

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  2. Obrigado pela visita Zéfiro.
    Estou aprendendo a importância de se procurar pelas raízes. Embora eu não faça a maior parte das práticas aqui mencionadas, relembrar todas elas me fez sentir mais próximo da magia e de meus ancestrais de uma maneira ou outra e, fez-me perceber que as vezes procuramos pela magia em livros e em lugares tão distantes quando na verdade ela está mais próxima do que imaginamos.
    Incentivo-te muito a procurar ouvir as histórias sobre sua avó, certamente você encontrará tesouros inimagináveis.

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  3. Você me fez viajar no tempo...
    Aqui interior de minha mística Bahia "O Canto Caruja" é ainda algo que persiste e por cá ao ouvi-lo logo se diz: "Alguém vai para Morrer, Deus é mais"...Esses dias mesmos (12/07/11)acordei pela madrugada ouvido-o por longos minutos, estranho canto, não conseguia distinguir ao abrir a janela, de onde vinha, mas reconheci com ouvidos e arrepios "o anuncio" da morte e foi dito e certo.
    ***A Oração do Leite de Nossa Senhora, ainda é usada é muito forte em nossa prática de "Fumaça"...
    Obrigado, e por favor sempre poste esses fragmentos de sabedoria, pois outros de nós com certeza se juntarão a tu nessa redescoberta da magia popular e familiar...
    Obrigado...

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  4. Olá caro amigo, claro, sempre que eu lembrar destes fragmentos vou postar sim, é tão surpreendente reconhecer o quão mágico é a cultura popular de nosso país e o quão próximo estamos uns do outros em termos de crença, a magia flui e sempre fluirá indomável , os padrões se repetem perenemente e quem tem olhos que veja.

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  5. A de não poder responder o nome eu sabia. Minha avó vive repetindo isso pra mim pq eu sempre respondo. XD A voz parece a dela, uai.
    E aqui em casa é mais de fazer remédio e banho. Tirando esse negócio do espírito, eu n conhecia essas q vc escreveu n.

    Adorei o post.

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  6. Olá , obrigado pela visita. Estas são histórias de família com alguns elementos comuns a tantas outras tradições populares e outros exclusivos.

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