quinta-feira, 28 de julho de 2011

Bruxaria Tradicional: Historicidade e Perpetuidade

Excertos da Entrevista de Mike Howard  para a editora Three Hands Press

A fim de provomer seu novo livro 'Children of Cain: A Study of Modern Witchcraft' [Crianças de Caim: Um Estudo da Bruxaria Moderna],  que se propoe a discorrer sobre a história e algumas chaves operacionais da Bruxaria Tradicional na Grã-Bretanha e EUA,  Mike Howard fora convidado por sua editora - a Three Hands Press - para uma entrevista exclusiva para falar sobre assuntos diversos ligados à sua nova obra. Nesta, ele elucida vários pontos da Arte Tradicional como o crescimento da corrente luciferiana dentro de algumas tradições na figura moderna de Lumiel, as práticas ocultistas e cerimoniais dentro da bruxaria, a relação entre bruxas e natureza, as divindades e espíritos da Arte, elitismo, a adoração de ambas as mãos entre outros.

Abaixo transcrevo alguns trechos com tradução livre que considero de significativa relevância para aqueles que queiram conhecer um pouco mais não apenas da Bruxaria Tradicional, mas da bruxaria como um todo, a partir do momento que são adotadas perspectivas históricas e factuais e não apenas especulativas sobre a Arte das Bruxas. A entrevista completa (em inglês) pode ser conferida no site da editora em Traditional Witchcraft: Historicity and Perpetuity - An Interview with Michael Howard.

    "Em minha opinião, a Arte Tradicional pode ser definida pelo fato de combinar vários sistemas mágicos,  crenças e maneiras de trabalhar magia que vão desde a primitiva a mais sofisticada - então chamadas 'baixa magia' e 'alta magia'."

    "O principal [equívoco sobre Bruxaria Tradicional] é que muitos dos chamados bruxos tradicionais afirmam em livros e artigos e em sites na internet que Bruxaria Tradicional é uma 'religião pagã de fertilidade'. Isto leva a aberrações como 'Bruxaria Tradicional Celta' e afirmações espúrias de tradições antigas que remontam a tempos pré-cristãos. Muitas bruxas tradicionais não consideram a sua arte como uma religião no sentido comum da palavra, nem mesmo uma pagã. Para elas, a bruxaria é mais um sistema mágico ou um caminho ocultista de desenvolvimento psíquico e espiritual.”

    "Há de se encarar que a Arte Tradicional é elitista. Ela é para poucos, não para muitos e sempre será. De certa maneira, isso é auto-gerado ou auto-criado porque nem todo mundo que está interessado em bruxaria per se será levado para o lado tradicional [dela]. Muitos estão absolutamente felizes como as formas mais populares e acessíveis que a bruxaria neo-pagã tem a oferecer."

    "Num nível esotérico, o conceito espiritual de que o 'sangue élfico' ou 'sangue-bruxo' descende dos Antigos Deuses ou dos Guardiões é uma crença central na maioria das formas de bruxaria tradicional. Não estamos falando aqui sobre uma continuidade física ou um única forma de DNA. Pelo contrário, é a alma que retorna à Arte através do processo de encarnação em 'casacos de pele'. Neste sentido esta é a derradeira forma de elitismo e exclusividade."

    "Por um longo período eu considerei Lúcifer com um deus-bruxo  [...] O nome de Madeline para Lúcifer era Senhor Lumiel (latino-hebraico) ou Lumial (latino-arábica), significando 'Senhor da Luz' [...] Desde então, o nome Lumiel tem sido amplamente adotado como um nome mais aceitável e menos controverso para o arcanjo rebelde e Senhor da Luz."

    "[...] Em meus artigos e livros usei o nome Lumiel para Lúcifer e cunhei o termo 'Arte Luciferiania'. Este termo foi usado para descrever aquelas formas de bruxaria tradicional modernas que reconhecem Lúcifer como um deus-bruxo e salvador da humanidade.

    "Ironicamente, a mais positiva exposição de mídia que Wiccanos receberam nos anos 80 e 90 realmente encorajou alguns seguidores da Fé Antiga a assumir o risco de vir a público. Suas motivações eram provar que outras formas de bruxaria além da Wicca existiam e tinham uma origem histórica e esta ainda é uma luta contínua. Também foi para atender a uma necessidade real na medida em que alguns dos que tinham sido iniciados na Wicca popular tornaram-se desiludidos com ela. Eles estavam agora em busca de algo mais profundo e autêntico."

    "Buscadores geralmente me perguntam como eles podem reconhecer o que é uma Arte Tradicional autêntica. Cada vez mais acredito que sua conexão com a bruxaria histórica, na crença e prática, que fornece o critério necessário para julgar aquilo que é autêntico ou não. Claro que diferentes variações da Arte antiga possuem suas similaridades e diferenças. Entretanto as mais genuínas formas de bruxaria tradicional compartilham certas 'chaves' que podem ser reconhecidas e indicarem se elas são genuínas."

    "De maneira geral a tradição de Robert Cochrane [Clan of Tubal Cain] tivera uma importante e poderosa influencia no avivamento da Bruxaria Tradicional."

    "Se Cochrane não era um bruxo hereditário então ele deve ter entrado em contanto com genuínos membros da Arte Antiga. Isto é porque sua tradição contém muitas das 'chaves' mencionadas antes que podem ser usadas para identificar a Bruxaria Tradicional. Por isso é ridículo para seus críticos alegarem que Cochrane 'inventou tudo'. É significativo que aqueles que fazem estas alegações nunca trabalharam seu sistema. Se eles tivessem feito, eles mudariam suas mentes - pois ele funciona e produz resultados. Este é o derradeiro teste para qualquer forma de bruxaria e magia."

    "Enquanto esta pode ser uma visão controversa, penso que é difícil separar completamente a Arte Antiga da tradição mágica ocidental. A relação entre bruxaria histórica e magia cerimonial é complexa e turva."

    "Outra contribuição pela Arte Antiga para a tradição mágica relaciona-se com a sobrevivência da magia salomônica. Foi frequentemente as bruxas que preservaram a práticas mágicas da tradição do grimório. Em seu livro Wictchraft and the Inquisition in Venice 1550-1650 [Bruxaria e Inquisição em Veneza 1550-1650], Ruth Martin refere-se a uma mulher detida por praticar bruxaria e uma cópia da Clavícula de Salomão foi achada em sua casa. Ela evidentemente emprestou o grimório e estava copiando à mão material dele em seu 'Livro Negro' pessoal."

    "Até mesmo Gerald Gardner herdou esta tradição [costume] dos Elders do velho covine que ele fora iniciado em New Forest em 1939. Em seu artigo na revista Illustrated em 1952 ele disse que o covine adicionou material da Clavícula de Salomão em seus rituais. No protótipo de Gardner do Livro das Sombras, Ye Bok of ye Arte Magical escrito nos anos 40, o lançamento do círculo ritual veio da Clavívula [de Salomão] e é o magus (sic) quem lança-o com uma espada cerimonial e não uma sacerdotisa como nas versões tardias do LdS."

    "Parte do problema [da animosidade mútua entre praticantes de magia cerimonial e bruxaria] é a projeção das visões dos neo-pagãos modernos de que a bruxaria histórica foi uma sobrevivência direta de uma religião pré-cristã. Como Robert Cochrane disse, elementos dos cultos pagãos de mistérios sobreviveram no culto das bruxas histórico mas ele não era 'pagão' per se. [...]"

    "Historiadores como Carlo Ginzburg, Bent Ankarloo e Gustav Henningsen identificaram elementos na bruxaria história da sobrevivência da adoração de uma figura tipo-deusa que pode ser identificada com Diana ou Frau Holda. O ensaio de Gustav Henningse 'Laides from de Outside: an Archaic Patter of the Wicthe's Sabbat in Early Modern Witchcraft', publicado pela Claredon Press Oxford em 1993, é um recurso útil relacionado a esta teoria. O ensaio lida com a perseguição das bruxas medievais sicilianas pela Inquisição Espanhola quando a Sicília era uma colônia imperial da Espanha. Ele descreve relatos recolhidos pelos inquisidores de contatos entre bruxas e fadas e reverência por uma figura feminina identificada pelos seus seguidores como 'rainha das fadas'. Uma 'deusa' similar é também conhecida nos julgamentos das bruxas inglesas e escocesas e era chamada de 'Rainha de Elfame' ou Terra das Fadas."

    "[...] Hoje, alguns bruxos tradicionais usam os salmos pra propósitos mágicos e subvertem e invertem imagens, simbolismos e crenças cristãs numa forma herética. Outros bruxos veem a estória de Jesus como uma legítima versão da antigo mito do 'deus sacrificado' ou rei divino.[...]"

    "Se crermos numa realidade de reinos multidimensionais além do mundo material, e esta é uma crença principal na bruxaria, então temos que aceitar que eles são habitados por outros seres, ex-humanos ou não-humanos. No Outro Mundo estas entidades podem não aparecer numa forma física que reconheceríamos. Tem-se sugerido que, na verdade, eles aparecem em formas abstratas de pura energia. Por esta razão, quando eles interagem com espíritos humanos, eles podem adotar imagens arquetípicas que são cultural e historicamente relevantes para aqueles que estão tendo a experiência."

    "Em muitas formas da Bruxaria Tradicional há o mito dos Guardiões ou dos então chamados "anjos caídos" encarnando em 'mantos de carne' no mundo material. Eles fizeram isso como exemplares culturais para então poderam instruir a humanidade nas artes da civilização e magia. Alguns bruxos luciferianos também acreditam que através das eras Lumiel tem encarnado na forma física em seu papel de Senhor do Mundo para acelerar o desenvolvimento espiritual da humanidade. Estes visitantes terrenos foram alegadamente registrados nos mitos antigos relacionados a deuses salvadores sacrificados como Osíris, Tammuz, Adônis, Átis, Mitras, Baldur, Quetzalcoatl - e mesmo Jesus. Se os Antigos Deuses e espíritos fossem meramente aspectos da psique humana ou projeções de nossas mentes e as correspondentes crenças associadas a eles, [então eles] não existiriam no mundo mitológico."

    "[...] Enquanto tradicionais podem reverenciar o deus-bruxo e a deusa-bruxa, que são deidades ou espíritos específicos e não apenas qualquer deus ou deusa pagã que você goste, igualmente como o Senhor e a Senhora, alguns dos velhos covines são exclusivamente orientados ao Deus Cornudo. Mesmo quando há uma deidade igualitária na Arte Tradicional, o Deus é uma figura muito menos emasculada que sua contra-parte na Wicca moderna e tem um papel mais amplo. Outros covines tradicionais possuem um sistema de crença animista e são politeístas na natureza com um largo séquito de espíritos masculinos e femininos.

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