sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Bruxaria Antes da Wicca

"Witchcraft Before Wicca", Michael Howard
Traduzido e publicado por Nion sob autorização do autor.
 
Atualmente a imagem popular da bruxaria na mídia de massa e nos livros e revistas é amplamente definida pela Wicca. Como sabemos a bruxaria moderna não se iniciou com Gardner e ela tem uma história oculta antes mesmo dele nascer. A partir dos anos 1800 havia vários avivamentos da bruxaria na Grã-Bretanha baseados em precedentes históricos. Estes foram retirados de crenças e práticas registradas do culto das bruxas medievais e cunning people [1] rurais ou magos populares, avivamentos do paganismo clássico e fontes de magia cerimonial, diabolismo e neo-druidismo e também foram influenciados pelo Rosacrucionismo e Maçonaria. Hoje, tais formas de bruxaria tradicional pré-wiccana são também conhecidas como “Arte Tradicional”, a “Antiga Arte”, a “Velha Arte”, a “Arte Sabbática”, a “Arte Sábia”, “A Arte Sem Nome” e o “Caminho Sinuoso”.

Há uma abundância de evidências a partir de fontes históricas, contos folclóricos, casos judiciais e, mais tarde, reportagens de jornais na Grã-Bretanha, das atividades destes então chamados cunning folks e outros praticantes de magia que eram popularmente considerados como bruxos. Nas crenças e terminologia popular, eles eram também conhecidos como “bruxas brancas”, “magos”, “feiticeiros”, “conjuradores”, “prestigitadores”, “planet readers (astrólogos) e “hedge doctors” (herbalistas). Estes praticantes de magia operavam amplamente nas áreas urbanas e rurais das Ilhas Britânicas e eram consultados por todas as classes sociais, de trabalhadores rurais aos donos de grandes propriedades rurais e ricos da classe-média nas cidades.

Estes assim chamados “bruxos” ofereciam uma ampla gama de serviços aos seus clientes. Eles eram popularmente creditados de possuir a Segunda Visão ou a habilidade de prever o futuro, exorcizar fantasmas e banir espíritos e poltergeists, lançar feitiços para atrair amor e dinheiro, localizar posses perdidas ou roubadas e pessoas desaparecidas usando divinação ou pela consulta à espíritos e curar humanos e animais doentes usando a “imposição das mãos” ou remédios herbais. Mais importante, na medida em que os seus clientes estavam preocupados, elas podiam contra-atacar os feitiços nefastos lançados pelos então chamados bruxos “cinzas” ou “negros”. Em alguns casos, o cunning folk até mesmo agiu para a população em geral e autoridades como caçadores de bruxas não oficiais. Entretanto, acreditava-se que todos estes tipos de bruxas eram capazes de curar e amaldiçoar, enfeitiçar e curar.

Embora haja semelhanças óbvias com algumas das práticas mágicas modernas realizadas por wiccanos, a maioria dos métodos e técnicas usadas pelas bruxas dos tempos antigos têm pouca semelhança com aqueles utilizados pelos atuais bruxos neo-pagãos. Muitas vezes os cunning folks praticavam uma adoração por ambas as mãos e para os encantos, amuletos, orações e encantamentos, eles costumavam invocar Jesus, a Virgem Maria, a Trindade e a companhia dos santos. Os salmos eram usados para propósitos mágicos como feitiços e eles ainda são em alguns círculos modernos de bruxaria tradicional. Com a chegada da nova fé do Cristianismo e com a supressão das antigas religiões pagãs, objetos como crucifixos, medalhões de santos, a hóstia e a água benta foram amplamente utilizados pelos magistas populares porque acreditava-se que eles possuíam “virtude” ou energia mágica e poder de cura inerente.

O simbolismo cristão era usado em rituais de magia popular envolvendo proteção psíquica, contra-feitiços e cura. Muitos dos antigos encantos pagãos foram cristianizados e alguns santos pegaram os atributos anteriores de deuses e deusas pagãos. Fontes sagradas anteriormente dedicadas a deusas, por exemplo, foram re-dedicadas a Virgem Maria ou a santas femininas como Winifrida e Brigite. Encantos de cura substituíram os nomes de deidades pagãs como Odin, Loki e Tor por aqueles de Deus, Jesus e do Espírito Santo. Muitos dos grimórios usados pelas bruxas e pelos praticantes de magia popular também continha simbolismos judaico-cristão.

Alguns modernos bruxos tradicionais ainda seguem uma adoração de ambas as mãos usando salmos para propósitos mágicos, trabalhando na companhia dos santos e empregando imagens, simbolismo e liturgia cristã, geralmente de forma herética e subversiva. Isto é parecido a algumas práticas similares que podem ser encontradas no vodu, hudu e Santeria. Macumba, ju-ju e abeah na América do Sul e do Norte e África. Em comum com as bruxas e  o cunning folk do passado, a moderna bruxa tradicional também cura ou amaldiçoa na medida do necessário.

Uma quantidade considerável do velho paganismo sobreviveu na crença popular no Povo Bom ou fadas. Há muitos exemplos históricos de bruxas e do cunning folk viajando por uma hollow hill [2] ou montanhas ou visitando um túmulo pré-histórico para encontrar a Rainha de Elfame (“elf home” ou Terra das Fadas). Alguns mortais entram em “casamentos feéricos” com os então chamados amantes do demônio e em troca eles são instruídos em técnicas de cura e divinação, herbalismo e concessão da Visão. Estes dons são passados de geração em geração como no caso dos famosos “fairy doctors” ou médicos de Mydffai no Sul da Gales, que recebiam seu conhecimento herbal de uma “Dama do Lago” local.

Esse conhecimento de encantamentos mágicos, ervas medicinais e conhecimento secreto das plantas foi passado oralmente em família ou por meio de textos escritos. Muitos do cunning folk e bruxas dos séculos XVIII e XIX eram pessoas alfabetizadas e vários dos cunning men mais famosos ou magos eram médicos, professores e até mesmo clérigos. Grimórios como o medieval Clavícula de Salomão e livros sobre magia, adivinhação e astrologia estavam livremente disponíveis. Eles podiam ser comprados de livreiros em Londres que se especializaram no ocultismo e pornografia. No século XIX, várias revistas de astrologia e ocultismo foram também publicadas e conquistaram um amplo público popular. Há também evidências de grimórios ou manuais mágicos escritos à mão conhecidos por “Livros Negros” circulando por entre bruxos e magistas. Estes eram similares ao moderno “Livro das Sombras” wiccano, exceto de que, no lugar de rituais sazonais neo-pagãos, eles continham feitiços, encantamentos, informações astrológicas e receitas para remédios herbais.

Porque acreditava-se amplamente que algum cunning folk podia “farejar” praticantes malévolos das artes mágicas, vários dos famosos cunning men foram creditados serem capazes de localizarem ou mesmo controlarem bruxas vivendo em sua vizinhança. Foi apenas um pequeno passo a partir desta crença para a idéia de que alguns desses “mestres das bruxas” ou “mestres bruxos” podessem secretamente ser líderes do coven local. De acordo com contos populares vitorianos, tais covens ou covines encontravam-se na zona rural às luas cheias para cultuar o Velho Chifrudo (o Diabo) e praticar os seus feitiços maléficos contra o povo temente a Deus, esgalgados na cama. Estes podem ter sidos contos romantizados, mas há evidências de que cunning men e wise-women solitários se encontravam com outros na sua localidade para praticar magia, apanhar receitas para feitiços e trocar conhecimentos ocultos. É lógico que, para evitar olhares indiscretos, tais encontros clandestinos seriam realizados em pontos solitários no campo e nas noites quando a lua fornecia mais luz.

E sobre a bruxaria tradicional de hoje e as diferenças entre esta e a wicca moderna? Ao contrário de muitos wiccanos, a bruxa tradicional prefere trabalhar ao ar livre. Por esta razão eles não vão “skyclad[3], preferindo vestes e capas como capuz sobre suas roupas comuns. É por isso que alguns grupos algumas vezes são chamados de “covens vestidos”. Como seria de se esperar do fato que eles geralmente trabalham ao ar livre, o genii loci ou “espíritos do lugar”, os wights [4] ou espíritos da terra, são muito importantes para suas práticas mágicas como é o conceito de “lugar sagrado”.

O conceito místico de lugar sagrado ou encantado é importante porque, apesar de todas as formas de bruxaria tradicional ter semelhanças, elas também se relacionam como a região onde são praticadas e isso cria diferenças locais na prática e crença. Muitos bruxos tradicionais se consideram como mordomos ou guardiões humanos de antigos sítios como círculos de pedra, menires e túmulos. Eles irão frequentemente trabalhar em ou perto de vestígios pré-históricos que marcam “caminhos dos espíritos”, “estradas fantasmas”, “estradas de cadáver” ou linhas imaginárias que cruzam a zona rural britânica entre estes “centros de poder” naturais. Embora reconheçam o poder mágico inerente à fauna e à flora, bruxos tradicionais são menos propensos a ser sentimentais em relação ao meio-ambiente do que os neo-pagãos. Tradicionais reconhecem que a natureza pode ser “vermelha nos dentes e na garra”[5] e que as leis naturais são baseadas na “sobrevivência do mais forte”.

Ao contrário de covens wiccanos que são dirigidos por uma Alta-Sacerdotisa com seu Sumo-Sacerdote como consorte e a iniciação é sempre do sexo masculino para o feminino ou feminino para o masculino, covines tradicionais são conduzidos por um líder masculino conhecido como Magister, Mestre ou “Diabo”. Ele pode iniciar homens e mulheres na Arte. Isto se deve à polaridade sexual não ser um aspecto tão importante da Arte Tradicional, e por esta razão, muitos grupos tradicionais são conhecidos como “knowledge covines”. O Magister algumas vezes tem um substituto masculino chamado de Convocador que é responsável por organizar as datas, horas e lugares de encontro. A líder feminina de um covine tradicional é conhecida variavelmente como Magistra, Mestra, Donzela ou Virgem, Senhora, Dama ou Rainha do Sabbat. Alguns grupos também possuem um Verdelet ou Homem Verde cujas atribuições é ensinar aos outros coveners os segredos dos poderes mágicos e as propriedades curativas das ervas, árvores e plantas. Outros papéis dentro de um covine podem incluir o Escriba, o Vidente e a Mistress of the Robes. Em algumas tradições, como a moderna Clã de Tubal Caim fundada pelo falecido Robert Cochraine, é a Donzela ou líder feminina que assume a posição de autoridade.

Dentro das práticas operatórias ou mágicas da bruxaria tradicional, pode ser encontrado o conceito de vôo do espírito (projeção astral) para o Sabbath das Bruxas usando o sabbati unguenti ou “unguento de vôo” feito de plantas narcóticas. Técnicas de visão psíquica, transe, mediunidade, “sonho desperto” e possessão espiritual são também usadas para contatar o Outro Mundo em maneiras familiares às formas étnicas de xamanismo. Elementais e espíritos são invocados e há uma comunhão com o reino das Fadas, o uso de familiares, fethches (o duplo astral de uma bruxa) e espíritos-guia, shapeshifiting em uma forma animal, feitiços e maldições, divinação, necromancia e herbalismo (curar com ervas e plantas).

Bruxas tradicionais abordam a divindade de uma forma duoteísta ou politeísta. As deidades ou espíritos reverenciados na Arte Tradicional são os “deuses do crepúsculo”, os ctônicos associados com os poderes de vida e morte, criação e destruição. Eles também são os que a religião ortodoxa descreve como os “poderes das trevas”. É por isso que, historicamente, a bruxa sempre foi considerada uma pária social e uma rebelde religiosa.

A deusa das bruxas possui um aspecto claro e um escuro. Por esta razão, ela é às vezes associada com a lua crescente e minguante ou com a lua cheia e lua negra e também com o destino e o submundo. Ela pode ser personificada mitologicamente como a Dama Hécate, Diana, Frau Holda, Habondia, Lilith e Titania ou a Rainha das Fadas. O Deus-Chifrudo também é bi-facetado como o Senhor da Floresta Selvagem e o Homem Verde em seu aspecto verão e o Senhor da Caçada Selvagem e Senhor da Morte no inverno. Em termos míticos ele pode ser representado como Herne, Wayland, Puck ou Robin Goodfellow, Caim, Tubal-Caim, Silvanus, Lúcifer, Shemyaza ou Azazel e Oberon ou o Rei dos Elfos. Ele aparece em forma animal como um veado, boi, cabra, carneiro ou um cão preto.

Alguns bruxos tradicionais, no entanto, preferem não associar suas deidades com nenhuma mitologia antiga. Ao contrário, se referem a elas obliquamente em termos genéricos como Os Antigos, Owd Lad e Owd Lass, o Homem Velho e a Mulher Velha, o Senhor e a Senhora, O Cornudo, Velho Chifrudo, o Diabo, a Antiga Dama ou mesmo apenas Ele e Ela.

Embora algumas bruxas e bruxos tradicionais e hereditários (aqueles que pertencem a uma tradição familiar) saíram das sombras nos últimos anos, eles são muito mais relutantes do que wiccanos na procura de publicidade. Eles não são suscetíveis de aparecer na televisão durante o dia vestindo roupas de veludo amassado, carregando um crânio de carneiro e um bastão, agitando espadas e cobertos de jóias ocultistas. Eles geralmente vivem na zona rural e eles frequentemente se parecem surpreendentemente normais, usando roupas comuns e se harmonizando com a paisagem. Porque eles possuem um fundo de conhecimento sobre constelações, fauna e flora, história antiga e local e o clima, pessoas comuns podem apenas achar que elas teem um grande interesse em assuntos do campo, natureza e folclore.

O neo-paganismo obviamente atrai muitas pessoas atualmente, especialmente aquelas buscando uma forma política de tendência “verde” de espiritualidade que cultua a natureza. Entretanto, aqueles que seguem a moderna bruxaria tradicional não são “adoradores da natureza” e alguns, nem mesmo se consideram como “pagãos”. Muitos não crêem que a Arte seja uma religião per se e, certamente, não uma “religião natural”. Pelo contrário, eles a consideram como um culto de mistérios oferecendo uma herança antiga de conhecimento mágico e conhecimento oculto (escondido) proibidos. Ela é um caminho místico que conduz a uma iluminação espiritual e, finalmente, à gnose e união com o Divino. Como tal, ela representa uma lanterna brilhante no escuro para aqueles buscadores dedicados que queiram entrar em contato como os antigos Mistérios no mundo moderno. 

(texto original aqui

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Notas do tradutor:
[1] Cunning people, cunning folk poderiam ser livremente traduzidos como pessoas sábias, sendo arquétipos semelhantes aos “curandeiros” de nossa cultura. 
[2] literalmente “monte oco”, uma colina com um cavidade natural rochosa frontal formando um tipo de gruta.
[3] “vestidos de céu”, expressão wiccana para a nudez ritual.
[4] do folclore britânico, termo para descrever uma criatura ou um principio de ser sensiente. Na literatura fantástica contemporânea os wights são equiparados a morto-vivos.
[5] “red in tooth and claw” no original, expressão inglesa utilizada para fazer alusão aos aspectos insitintivos ou agressivos da natureza, principalmente dos animais.

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