quinta-feira, 28 de julho de 2011

Bruxaria Tradicional: Historicidade e Perpetuidade

Excertos da Entrevista de Mike Howard  para a editora Three Hands Press

A fim de provomer seu novo livro 'Children of Cain: A Study of Modern Witchcraft' [Crianças de Caim: Um Estudo da Bruxaria Moderna],  que se propoe a discorrer sobre a história e algumas chaves operacionais da Bruxaria Tradicional na Grã-Bretanha e EUA,  Mike Howard fora convidado por sua editora - a Three Hands Press - para uma entrevista exclusiva para falar sobre assuntos diversos ligados à sua nova obra. Nesta, ele elucida vários pontos da Arte Tradicional como o crescimento da corrente luciferiana dentro de algumas tradições na figura moderna de Lumiel, as práticas ocultistas e cerimoniais dentro da bruxaria, a relação entre bruxas e natureza, as divindades e espíritos da Arte, elitismo, a adoração de ambas as mãos entre outros.

Abaixo transcrevo alguns trechos com tradução livre que considero de significativa relevância para aqueles que queiram conhecer um pouco mais não apenas da Bruxaria Tradicional, mas da bruxaria como um todo, a partir do momento que são adotadas perspectivas históricas e factuais e não apenas especulativas sobre a Arte das Bruxas. A entrevista completa (em inglês) pode ser conferida no site da editora em Traditional Witchcraft: Historicity and Perpetuity - An Interview with Michael Howard.

    "Em minha opinião, a Arte Tradicional pode ser definida pelo fato de combinar vários sistemas mágicos,  crenças e maneiras de trabalhar magia que vão desde a primitiva a mais sofisticada - então chamadas 'baixa magia' e 'alta magia'."

    "O principal [equívoco sobre Bruxaria Tradicional] é que muitos dos chamados bruxos tradicionais afirmam em livros e artigos e em sites na internet que Bruxaria Tradicional é uma 'religião pagã de fertilidade'. Isto leva a aberrações como 'Bruxaria Tradicional Celta' e afirmações espúrias de tradições antigas que remontam a tempos pré-cristãos. Muitas bruxas tradicionais não consideram a sua arte como uma religião no sentido comum da palavra, nem mesmo uma pagã. Para elas, a bruxaria é mais um sistema mágico ou um caminho ocultista de desenvolvimento psíquico e espiritual.”

    "Há de se encarar que a Arte Tradicional é elitista. Ela é para poucos, não para muitos e sempre será. De certa maneira, isso é auto-gerado ou auto-criado porque nem todo mundo que está interessado em bruxaria per se será levado para o lado tradicional [dela]. Muitos estão absolutamente felizes como as formas mais populares e acessíveis que a bruxaria neo-pagã tem a oferecer."

    "Num nível esotérico, o conceito espiritual de que o 'sangue élfico' ou 'sangue-bruxo' descende dos Antigos Deuses ou dos Guardiões é uma crença central na maioria das formas de bruxaria tradicional. Não estamos falando aqui sobre uma continuidade física ou um única forma de DNA. Pelo contrário, é a alma que retorna à Arte através do processo de encarnação em 'casacos de pele'. Neste sentido esta é a derradeira forma de elitismo e exclusividade."

    "Por um longo período eu considerei Lúcifer com um deus-bruxo  [...] O nome de Madeline para Lúcifer era Senhor Lumiel (latino-hebraico) ou Lumial (latino-arábica), significando 'Senhor da Luz' [...] Desde então, o nome Lumiel tem sido amplamente adotado como um nome mais aceitável e menos controverso para o arcanjo rebelde e Senhor da Luz."

    "[...] Em meus artigos e livros usei o nome Lumiel para Lúcifer e cunhei o termo 'Arte Luciferiania'. Este termo foi usado para descrever aquelas formas de bruxaria tradicional modernas que reconhecem Lúcifer como um deus-bruxo e salvador da humanidade.

    "Ironicamente, a mais positiva exposição de mídia que Wiccanos receberam nos anos 80 e 90 realmente encorajou alguns seguidores da Fé Antiga a assumir o risco de vir a público. Suas motivações eram provar que outras formas de bruxaria além da Wicca existiam e tinham uma origem histórica e esta ainda é uma luta contínua. Também foi para atender a uma necessidade real na medida em que alguns dos que tinham sido iniciados na Wicca popular tornaram-se desiludidos com ela. Eles estavam agora em busca de algo mais profundo e autêntico."

    "Buscadores geralmente me perguntam como eles podem reconhecer o que é uma Arte Tradicional autêntica. Cada vez mais acredito que sua conexão com a bruxaria histórica, na crença e prática, que fornece o critério necessário para julgar aquilo que é autêntico ou não. Claro que diferentes variações da Arte antiga possuem suas similaridades e diferenças. Entretanto as mais genuínas formas de bruxaria tradicional compartilham certas 'chaves' que podem ser reconhecidas e indicarem se elas são genuínas."

    "De maneira geral a tradição de Robert Cochrane [Clan of Tubal Cain] tivera uma importante e poderosa influencia no avivamento da Bruxaria Tradicional."

    "Se Cochrane não era um bruxo hereditário então ele deve ter entrado em contanto com genuínos membros da Arte Antiga. Isto é porque sua tradição contém muitas das 'chaves' mencionadas antes que podem ser usadas para identificar a Bruxaria Tradicional. Por isso é ridículo para seus críticos alegarem que Cochrane 'inventou tudo'. É significativo que aqueles que fazem estas alegações nunca trabalharam seu sistema. Se eles tivessem feito, eles mudariam suas mentes - pois ele funciona e produz resultados. Este é o derradeiro teste para qualquer forma de bruxaria e magia."

    "Enquanto esta pode ser uma visão controversa, penso que é difícil separar completamente a Arte Antiga da tradição mágica ocidental. A relação entre bruxaria histórica e magia cerimonial é complexa e turva."

    "Outra contribuição pela Arte Antiga para a tradição mágica relaciona-se com a sobrevivência da magia salomônica. Foi frequentemente as bruxas que preservaram a práticas mágicas da tradição do grimório. Em seu livro Wictchraft and the Inquisition in Venice 1550-1650 [Bruxaria e Inquisição em Veneza 1550-1650], Ruth Martin refere-se a uma mulher detida por praticar bruxaria e uma cópia da Clavícula de Salomão foi achada em sua casa. Ela evidentemente emprestou o grimório e estava copiando à mão material dele em seu 'Livro Negro' pessoal."

    "Até mesmo Gerald Gardner herdou esta tradição [costume] dos Elders do velho covine que ele fora iniciado em New Forest em 1939. Em seu artigo na revista Illustrated em 1952 ele disse que o covine adicionou material da Clavícula de Salomão em seus rituais. No protótipo de Gardner do Livro das Sombras, Ye Bok of ye Arte Magical escrito nos anos 40, o lançamento do círculo ritual veio da Clavívula [de Salomão] e é o magus (sic) quem lança-o com uma espada cerimonial e não uma sacerdotisa como nas versões tardias do LdS."

    "Parte do problema [da animosidade mútua entre praticantes de magia cerimonial e bruxaria] é a projeção das visões dos neo-pagãos modernos de que a bruxaria histórica foi uma sobrevivência direta de uma religião pré-cristã. Como Robert Cochrane disse, elementos dos cultos pagãos de mistérios sobreviveram no culto das bruxas histórico mas ele não era 'pagão' per se. [...]"

    "Historiadores como Carlo Ginzburg, Bent Ankarloo e Gustav Henningsen identificaram elementos na bruxaria história da sobrevivência da adoração de uma figura tipo-deusa que pode ser identificada com Diana ou Frau Holda. O ensaio de Gustav Henningse 'Laides from de Outside: an Archaic Patter of the Wicthe's Sabbat in Early Modern Witchcraft', publicado pela Claredon Press Oxford em 1993, é um recurso útil relacionado a esta teoria. O ensaio lida com a perseguição das bruxas medievais sicilianas pela Inquisição Espanhola quando a Sicília era uma colônia imperial da Espanha. Ele descreve relatos recolhidos pelos inquisidores de contatos entre bruxas e fadas e reverência por uma figura feminina identificada pelos seus seguidores como 'rainha das fadas'. Uma 'deusa' similar é também conhecida nos julgamentos das bruxas inglesas e escocesas e era chamada de 'Rainha de Elfame' ou Terra das Fadas."

    "[...] Hoje, alguns bruxos tradicionais usam os salmos pra propósitos mágicos e subvertem e invertem imagens, simbolismos e crenças cristãs numa forma herética. Outros bruxos veem a estória de Jesus como uma legítima versão da antigo mito do 'deus sacrificado' ou rei divino.[...]"

    "Se crermos numa realidade de reinos multidimensionais além do mundo material, e esta é uma crença principal na bruxaria, então temos que aceitar que eles são habitados por outros seres, ex-humanos ou não-humanos. No Outro Mundo estas entidades podem não aparecer numa forma física que reconheceríamos. Tem-se sugerido que, na verdade, eles aparecem em formas abstratas de pura energia. Por esta razão, quando eles interagem com espíritos humanos, eles podem adotar imagens arquetípicas que são cultural e historicamente relevantes para aqueles que estão tendo a experiência."

    "Em muitas formas da Bruxaria Tradicional há o mito dos Guardiões ou dos então chamados "anjos caídos" encarnando em 'mantos de carne' no mundo material. Eles fizeram isso como exemplares culturais para então poderam instruir a humanidade nas artes da civilização e magia. Alguns bruxos luciferianos também acreditam que através das eras Lumiel tem encarnado na forma física em seu papel de Senhor do Mundo para acelerar o desenvolvimento espiritual da humanidade. Estes visitantes terrenos foram alegadamente registrados nos mitos antigos relacionados a deuses salvadores sacrificados como Osíris, Tammuz, Adônis, Átis, Mitras, Baldur, Quetzalcoatl - e mesmo Jesus. Se os Antigos Deuses e espíritos fossem meramente aspectos da psique humana ou projeções de nossas mentes e as correspondentes crenças associadas a eles, [então eles] não existiriam no mundo mitológico."

    "[...] Enquanto tradicionais podem reverenciar o deus-bruxo e a deusa-bruxa, que são deidades ou espíritos específicos e não apenas qualquer deus ou deusa pagã que você goste, igualmente como o Senhor e a Senhora, alguns dos velhos covines são exclusivamente orientados ao Deus Cornudo. Mesmo quando há uma deidade igualitária na Arte Tradicional, o Deus é uma figura muito menos emasculada que sua contra-parte na Wicca moderna e tem um papel mais amplo. Outros covines tradicionais possuem um sistema de crença animista e são politeístas na natureza com um largo séquito de espíritos masculinos e femininos.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Diário de Um Bruxo Solitário: Luna Anima, Cântico de Poder

Protegido pelo silêncio da noite e iluminado pela Lua sob o Véu das Estrelas, deixei meu corpo livre  movendo-se a seu gosto , enquanto minhas mãos teciam algo invisível no ar e meus lábios cantava em êxtase:


Eleve-me, eleve-me
Quero ouvir sua alma
Mestra natureza, Senhora Luna
Que nossas almas tornem-se una.

Eleve-me, eleve-me
Quero ouvir sua alma
Luz das estrelas, Senhora Luna
Que nossas almas tornem-se una

Eleve-me, eleve-me
Quero ouvir sua alma
Espírito da roseira [1], Senhora Luna
Que nossas almas tornem-se una"


_____________
[1] referi-me ao espírito da roseira pois este cântico fora criado espontaneamente quando estava perto de minha roseira e senti que devia invocar seu espírito para minha comunhão. Aquele que for usar este cântico pode e deve substituir este verso por um mais apropriado a suas circunstâncias.

sábado, 16 de julho de 2011

Diário de Um Bruxo Solitário: Pequeno Santuário Natural e Particular

Aos poucos percebo de onde vem, nasce e flui a magia e a energia. Não há sentido em trabalhar ritos para a Lua, o Sol, chamar pelos espíritos e deuses se não percebemos as linhas energéticas que nos cercam, se não houver contato com a terra e com os pequenos genii loci que a habitam.
Felizmente moro numa pequena cidade interiorana, e, embora seja uma cidade, ela é rodeada por arvoredos, planícies e lagos onde a presença dos gênios da natureza fluem tão nítidos quanto os cantos vigorosos dos pardais sob o Sol da aurora ou o solitário murmúrio da coruja sob a palidez da Lua - há até mesmo uma lenda urbana que diz que a cidade já fora um cemitério de índios num passado remoto reforçando a aura mágica da pequena cidade. 
Minha casa possui um quintal generoso onde cresce a mais exuberante e diversificada flora, da qual se destaca um limoeiro que eu me lembro de quando ainda era um broto e hoje é uma árvore frondosa. Havia também, por cima do limoeiro, um pé de maracujá e a noite,  suas flores exalavam seu perfume inebriante de mistério.  Meu quintal é sagrado pra mim e nele eu trabalho meus ritos de devoção e meus feitiços. Nele e em seus habitantes - grama, flores, árvores, ervas, aranhas, abelhas, borboletas, formigas e morcegos - eu vejo e sinto a dança das estações e ouço canções indomáveis. Não o vejo como limitado ou isolado, vejo-o como uma extensão das planícies e bosques que fazem vizinhança comigo e, durante a noite, quando o véu da Senhora acaba com a ilusão da individualidade, não há como dizer o contrário de meu pequeno santuário, natural e particular.

- arte da postagem: The Sacrad Lemon Tree, Catherine Walker >>

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Práticas de Magia Popular e Cristã de Família

Não ousaria e tampouco teria a petulância de dizer que pertenço a uma família de bruxos onde a tradição fora passada de geração em geração (embora há um poder inerente a linhagem passado pelo sangue). Contudo, seguramente reconheço algumas práticas e crenças de magia popular e magia cristã em vários ensinamentos transmitidos à minha mãe e desta a mim, daqueles que curiosa e respeitosamente ela chama (assim como muitas pessoas do interior paulista chama seus avós e bisavós) de "os antigos".  Infelizmente estas práticas são poucas e eu imagino o quanto de sabedoria magica tenha se perdido com o passar das gerações. Estes conhecimentos não eram ostentados por seus portadores - humildes camponeses- e, muitos da própria família os chamavam de superstições ou pecado, e só eram transmitidos pela necessidade ou como contos folclóricos.
Sinto que devo registrar estas práticas para não perder o pouco que sobrevivera deste legado mágico, herético, folclórico, supersticioso ou qualquer outro nome que lhes caibam.

Ângelus (1859), de Jean François Millet

O Canto da Coruja e o Anjo da Morte
É comum na sabedoria popular a premonição através de um augúrio pelo "canto" da coruja,  um canto que preconiza a morte. Uma vez indagamos a minha mãe que corujas sempre cantam e nem sempre morre alguém,e  ela disse que nem toda vez que a coruja canta ela “traz” a morte - que é apenas um canto especial, em suas palavras, "doído, triste, um choro". Sempre que pousa uma coruja em nosso telhado ou no de outrem e ela "canta a morte" minha mãe reconhece o anjo negro estendendo sua foice sobre a família da casa em que ela pousara. Não demora dias para o Ceifador estender suavemente beijar o escolhido.
Não raro, ainda, ela chega dizendo que fulano tem os dias curtos, pois ela vira um caixão ao lado da pessoa ou que está com gosto férreo de sangue na boca. Várias mortes já foram avisadas por ela dessa maneira e, às vezes, junto à visão ela diz que sua boca fica com gosto férreo de sangue.

O Leite da Virgem
Ela conhece um "benzimento" especial que aprendera com os "antigos" invocando o poder do "leite da Virgem Maria". Esta prática é sua maior especialidade e ela a utiliza em mim desde que me conheço por gente. Quando me benze, sinto um poder muito grande desprendendo de suas mãos e percorrendo todo o meu corpo.
Este benzimento é feito nossas costas ou testa da pessoa e envolve um encantamento e um rito. Ela chama pelo nome da pessoa, que terá que responder "senhora". Então ela sussura: "Não tenho nada pra te oferecer, tenho apenas o leite da Virgem Maria para te dar e te proteger". Muda-se as palavras finais do encanto de acordo com a necessidade.
Percebam que esta prática - assim como algumas outras "cristãs" que ela nos conta - não possui o objetivo principal de "adoração", mas, sobretudo, tem um objetivo prático geralmente envolvendo proteção ou cura.

O Credo para Benção e Maldição
A prática a seguir é uma prática cristã reconhecidamente herege que já a ouvi ensinando para muitas pessoas para ser usada contra inimigos. Se uma pessoa esta te perturbando ou tenha inveja e "olho-gordo", reze o "Creio em Deus Padre" de baixo pra cima (invertido) nas costas da pessoa três vezes que isso afasta o mal.
Ainda usando a "virtude" do Creio em Deus Padre, ela benze recitando-o enquanto "cruza" com as suas mãos as costas da pessoa. Ela diz que isso exorciza, fecha o corpo e protege. Sempre lembro-me dela nos dizendo que nem sequer imaginamos o poder imenso que o Creio em Deus Padre possui. Mais uma vez, o foco da oração passa longe da finalidade devocional.

Os Espíritos
Os relatos a seguir são comuns no interior paulista e também faz parte do legado de família. Em relação aos espíritos, minha mãe sempre nos ensinou várias coisas. Que nunca devemos responder quando chamam o nosso nome antes de ter a certeza que realmente alguém vivo é quem está nos chamamos. Que quando estamos comendo e o alimento cai de nossas mãos é porque algum espírito - geralmente de um parente falecido - está com vontade daquela comida e então devemos colocar um pedaço para ele. Que nunca devemos acender vela para espíritos dos mortos dentro de casa. E que, quando necessitássemos de algo, podíamos orar e oferecer velas (fora de casa sempre) às Sete Almas Benditas, às almas daqueles que morreram de fome, de sede, afogadas, queimadas, e outras que não me lembro - e provavelmente nem ela.

Mel e Sal
Sempre quando quiser aproximar duas pessoas, pegue duas velas brancas e escreva os nomes das pessoas nelas (um nome em cada vela) de cima pra baixo, então as envolva em mel ou em açúcar e coloque-as para queimar. Isso vai “adoçar” a relação entre as duas pessoas. Se, pelo contrário, você quiser afastar duas pessoas, escreva os nomes nas velas de baixo pra cima e jogue sal antes de queimá-las.



Àrvores que Realizam Desejos
A próxima prática é uma reconhecidamente pagã. Quando precisássemos de alguma coisa, era para pedirmos a uma árvore – isso era feito abraçando-a e contando para a mesmo nosso desejo. Certa vez, ela conseguiu a venda de uma casa amaldiçoada na qual que vivíamos pedindo para a árvore plantada em nossa calçada. Em prazo de pouco tempo a venda fora acertada. Ela ensinava também que podíamos pedir à Lua igualmente, mas nunca, ao Sol pois podíamos morrer queimados.

Apesar de todas estas práticas e ensinamentos hereges e mágicos, além de outros que me escapam à memória, minha mãe (assim como seus antepassados) se considera "Católica", e tem sincera devoção à Jesus, aos Santos e a Virgem Maria. E este é um pequeno retrato de fragmentos da magia popular camponesa nascida em berço pagão mediterrâneo, abençoada, amaldiçoada e assimilada pelos seguidores do Cristo e espalhada pelas terras de Vera Cruz.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Nos Braços de Morfeu: Os Mistérios dos Sonhos

Morpheus and Iris,
Baron Pierre-Narcisse Guérin
Poderíamos dizer que vivemos duas vidas, uma em estado de vigília e outra, em estado de sono. Quando fechamos nossos olhos neste mundo, os abrimos para outros, e, aqueles que conseguem explorar os estados oníricos, descobrem um rico manancial de mistérios e poder.
Existem vários fenômenos genericamente chamados de “sonho” ou associados a este, mas que são distintos entre si, cada qual possuindo características e natureza própria a se saber:

Sonho Vulgar
O estado comum de sonho. Não se sabe exatamente o que são os sonhos; para Freud eles são manifestações inconsciente dos desejos; para Jung, a consciência em busca de equilíbrio e compensação. Seguramente podemos afirmar, que os sonhos são representações visuais (e muitas vezes envolvendo outros sentidos) de cargas emocionais.  
Os sonhos vulgares também são uma forma de comunicação com nosso Eu superior (genius, daimon, godself, ou Espírito) nos trazendo conhecimento sobre nós mesmos.

Sonhos Lúcidos
Atividade em que se está sonhando, mas que se tem o domínio consciente do sonho. Neste fenômeno, a pessoa explora seu próprio mundo onírico, único e particular (suas emoções, desejos, pensamentos refletidos) e pode “escolher” sonhar aquilo que quiser. A pessoa tem absoluta consciência de que está dormindo e de que está sonhando e não é raro ela, consciente, decidir acordar e assim o faz.
Muitos confundem este estado onírico com o desdobramento (viagem astral), mas estes são dois fenômenos que, embora possam pareçam semelhantes, são distintos.

Sonhos Proféticos e de Revelação
Este tipo de sonho é inspirado por deuses e espíritos e mostram eventos futuros ou fatos ocultos trazendo conhecimento e sabedoria (descobertas científicas, conhecimento espiritual e divino, resolução de problemas, etc). A maioria das tradições religiosas reconhece a existência dos sonhos proféticos e de revelação como forma de comunicação com Deus e com os anjos nas tradições abraamicas; e com deuses, espíritos e fadas, nas pagãs.

Desdobramento
Conhecido popularmente como Viagem Astral é a atividade em que a consciência literalmente sai do corpo e explora outros mundos através do corpo astral.
A diferença entre o sonho lúcido e a viagem astral é que enquanto no primeiro o sonhador explora seu próprio mundo subjetivo, no segundo, ele explora o mundo astral, comum a várias consciências. 
O desdobramento é tão comum quanto o sonho vulgar, porém, na maior parte das vezes, é inconsciente e o sonhador não retém, senão subconscientemente, as lembranças de sua estadia nos reinos astrais. Desdobramentos espontâneos também acontecem em momentos e crise profunda, sendo amplamente relatados por pessoas que se envolvem com acidentes de carro.
Embora o desdobramento seja comumente um fenômeno espontâneo e inconsciente como já dito, há exercícios e rituais para que ele seja realizado conscientemente de acordo com a vontade.

O Vôo das Bruxas
Atividade comumente associado às bruxas da Idade Média, um fenômeno no qual a pessoa, de maneira consciente, entra em estado entre o sonho e lucidez e, depois, projeta a consciência num desdobramento mas mantém maior proximidade com o mundo físico. A consciência deixa o corpo exatamente no local em que este se encontra e a partir daí viaja tanto no mundo físico quanto o astral no limite destes dois. 
Na Bruxaria Tradicional, o Võo das Bruxas é uma prática comum, onde elas “voam” até o Sabbat ou o Reino das Fadas, local de reunião e festejo com deuses, espíritos, ancestrais e outras bruxas. Diversos são os meios para o vôo das bruxas como o uso do famoso unguentum sabbati, filtros preparados com base em substâncias enteógenas e técnicas de projeção em rituais.

Doppelgänger
Não é uma estado onírico propriamente dito mas mantém relação com o desdobramente e também foi comumente associado às bruxas. Doppelgänger, fusão das palavras alemãs doppel (duplo, réplica ou duplicata) e gänger (andante, ambulante ou aquele que vaga) é a projeção do duplo-etérico de uma pessoa, conhecido na bruxaria como fetch.
Na crença popular a aparição do duplo de uma pessoal é um sinal de mal agouro que traz notícias ruins e mais frequentemente, a morte (então chamadas de “aparições de crise”).
Durante o julgamento das bruxas era comum a crença de que as bruxas utilizavam-se de seu fetch para causar mal a pessoas e animais pois sua constituição semi-física possui maior influencia sobre a matéria do que o corpo astral. Bruxas atuais continuam a usar seu fetch para tarefas diversas.

Pesadelos
Pesadelos são simplesmente qualquer estado onírico que traga sensações ruins para o sonhador. Podem ser sonhos vulgares inspirados por emoções negativas, sonhos proféticos incitados por demônios e espíritos malfazejos, desdobramentos feitos para regiões abismais do mundo astral. Pesadelos também são causados por ataques astrais de entidades e espíritos. Estes ataques são muito frequentes e são devido a eles que muitas vezes acordamos com o corpo dolorido como se realmente tivéssimos levados uma surra. Na crença popular era costume durmir com uma tesoura aberta ou faca sob o travesseiro para proteger as pessoas contra estes ataques noturnos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Bruxaria Antes da Wicca

"Witchcraft Before Wicca", Michael Howard
Traduzido e publicado por Nion sob autorização do autor.
 
Atualmente a imagem popular da bruxaria na mídia de massa e nos livros e revistas é amplamente definida pela Wicca. Como sabemos a bruxaria moderna não se iniciou com Gardner e ela tem uma história oculta antes mesmo dele nascer. A partir dos anos 1800 havia vários avivamentos da bruxaria na Grã-Bretanha baseados em precedentes históricos. Estes foram retirados de crenças e práticas registradas do culto das bruxas medievais e cunning people [1] rurais ou magos populares, avivamentos do paganismo clássico e fontes de magia cerimonial, diabolismo e neo-druidismo e também foram influenciados pelo Rosacrucionismo e Maçonaria. Hoje, tais formas de bruxaria tradicional pré-wiccana são também conhecidas como “Arte Tradicional”, a “Antiga Arte”, a “Velha Arte”, a “Arte Sabbática”, a “Arte Sábia”, “A Arte Sem Nome” e o “Caminho Sinuoso”.

Há uma abundância de evidências a partir de fontes históricas, contos folclóricos, casos judiciais e, mais tarde, reportagens de jornais na Grã-Bretanha, das atividades destes então chamados cunning folks e outros praticantes de magia que eram popularmente considerados como bruxos. Nas crenças e terminologia popular, eles eram também conhecidos como “bruxas brancas”, “magos”, “feiticeiros”, “conjuradores”, “prestigitadores”, “planet readers (astrólogos) e “hedge doctors” (herbalistas). Estes praticantes de magia operavam amplamente nas áreas urbanas e rurais das Ilhas Britânicas e eram consultados por todas as classes sociais, de trabalhadores rurais aos donos de grandes propriedades rurais e ricos da classe-média nas cidades.

Estes assim chamados “bruxos” ofereciam uma ampla gama de serviços aos seus clientes. Eles eram popularmente creditados de possuir a Segunda Visão ou a habilidade de prever o futuro, exorcizar fantasmas e banir espíritos e poltergeists, lançar feitiços para atrair amor e dinheiro, localizar posses perdidas ou roubadas e pessoas desaparecidas usando divinação ou pela consulta à espíritos e curar humanos e animais doentes usando a “imposição das mãos” ou remédios herbais. Mais importante, na medida em que os seus clientes estavam preocupados, elas podiam contra-atacar os feitiços nefastos lançados pelos então chamados bruxos “cinzas” ou “negros”. Em alguns casos, o cunning folk até mesmo agiu para a população em geral e autoridades como caçadores de bruxas não oficiais. Entretanto, acreditava-se que todos estes tipos de bruxas eram capazes de curar e amaldiçoar, enfeitiçar e curar.

Embora haja semelhanças óbvias com algumas das práticas mágicas modernas realizadas por wiccanos, a maioria dos métodos e técnicas usadas pelas bruxas dos tempos antigos têm pouca semelhança com aqueles utilizados pelos atuais bruxos neo-pagãos. Muitas vezes os cunning folks praticavam uma adoração por ambas as mãos e para os encantos, amuletos, orações e encantamentos, eles costumavam invocar Jesus, a Virgem Maria, a Trindade e a companhia dos santos. Os salmos eram usados para propósitos mágicos como feitiços e eles ainda são em alguns círculos modernos de bruxaria tradicional. Com a chegada da nova fé do Cristianismo e com a supressão das antigas religiões pagãs, objetos como crucifixos, medalhões de santos, a hóstia e a água benta foram amplamente utilizados pelos magistas populares porque acreditava-se que eles possuíam “virtude” ou energia mágica e poder de cura inerente.

O simbolismo cristão era usado em rituais de magia popular envolvendo proteção psíquica, contra-feitiços e cura. Muitos dos antigos encantos pagãos foram cristianizados e alguns santos pegaram os atributos anteriores de deuses e deusas pagãos. Fontes sagradas anteriormente dedicadas a deusas, por exemplo, foram re-dedicadas a Virgem Maria ou a santas femininas como Winifrida e Brigite. Encantos de cura substituíram os nomes de deidades pagãs como Odin, Loki e Tor por aqueles de Deus, Jesus e do Espírito Santo. Muitos dos grimórios usados pelas bruxas e pelos praticantes de magia popular também continha simbolismos judaico-cristão.

Alguns modernos bruxos tradicionais ainda seguem uma adoração de ambas as mãos usando salmos para propósitos mágicos, trabalhando na companhia dos santos e empregando imagens, simbolismo e liturgia cristã, geralmente de forma herética e subversiva. Isto é parecido a algumas práticas similares que podem ser encontradas no vodu, hudu e Santeria. Macumba, ju-ju e abeah na América do Sul e do Norte e África. Em comum com as bruxas e  o cunning folk do passado, a moderna bruxa tradicional também cura ou amaldiçoa na medida do necessário.

Uma quantidade considerável do velho paganismo sobreviveu na crença popular no Povo Bom ou fadas. Há muitos exemplos históricos de bruxas e do cunning folk viajando por uma hollow hill [2] ou montanhas ou visitando um túmulo pré-histórico para encontrar a Rainha de Elfame (“elf home” ou Terra das Fadas). Alguns mortais entram em “casamentos feéricos” com os então chamados amantes do demônio e em troca eles são instruídos em técnicas de cura e divinação, herbalismo e concessão da Visão. Estes dons são passados de geração em geração como no caso dos famosos “fairy doctors” ou médicos de Mydffai no Sul da Gales, que recebiam seu conhecimento herbal de uma “Dama do Lago” local.

Esse conhecimento de encantamentos mágicos, ervas medicinais e conhecimento secreto das plantas foi passado oralmente em família ou por meio de textos escritos. Muitos do cunning folk e bruxas dos séculos XVIII e XIX eram pessoas alfabetizadas e vários dos cunning men mais famosos ou magos eram médicos, professores e até mesmo clérigos. Grimórios como o medieval Clavícula de Salomão e livros sobre magia, adivinhação e astrologia estavam livremente disponíveis. Eles podiam ser comprados de livreiros em Londres que se especializaram no ocultismo e pornografia. No século XIX, várias revistas de astrologia e ocultismo foram também publicadas e conquistaram um amplo público popular. Há também evidências de grimórios ou manuais mágicos escritos à mão conhecidos por “Livros Negros” circulando por entre bruxos e magistas. Estes eram similares ao moderno “Livro das Sombras” wiccano, exceto de que, no lugar de rituais sazonais neo-pagãos, eles continham feitiços, encantamentos, informações astrológicas e receitas para remédios herbais.

Porque acreditava-se amplamente que algum cunning folk podia “farejar” praticantes malévolos das artes mágicas, vários dos famosos cunning men foram creditados serem capazes de localizarem ou mesmo controlarem bruxas vivendo em sua vizinhança. Foi apenas um pequeno passo a partir desta crença para a idéia de que alguns desses “mestres das bruxas” ou “mestres bruxos” podessem secretamente ser líderes do coven local. De acordo com contos populares vitorianos, tais covens ou covines encontravam-se na zona rural às luas cheias para cultuar o Velho Chifrudo (o Diabo) e praticar os seus feitiços maléficos contra o povo temente a Deus, esgalgados na cama. Estes podem ter sidos contos romantizados, mas há evidências de que cunning men e wise-women solitários se encontravam com outros na sua localidade para praticar magia, apanhar receitas para feitiços e trocar conhecimentos ocultos. É lógico que, para evitar olhares indiscretos, tais encontros clandestinos seriam realizados em pontos solitários no campo e nas noites quando a lua fornecia mais luz.

E sobre a bruxaria tradicional de hoje e as diferenças entre esta e a wicca moderna? Ao contrário de muitos wiccanos, a bruxa tradicional prefere trabalhar ao ar livre. Por esta razão eles não vão “skyclad[3], preferindo vestes e capas como capuz sobre suas roupas comuns. É por isso que alguns grupos algumas vezes são chamados de “covens vestidos”. Como seria de se esperar do fato que eles geralmente trabalham ao ar livre, o genii loci ou “espíritos do lugar”, os wights [4] ou espíritos da terra, são muito importantes para suas práticas mágicas como é o conceito de “lugar sagrado”.

O conceito místico de lugar sagrado ou encantado é importante porque, apesar de todas as formas de bruxaria tradicional ter semelhanças, elas também se relacionam como a região onde são praticadas e isso cria diferenças locais na prática e crença. Muitos bruxos tradicionais se consideram como mordomos ou guardiões humanos de antigos sítios como círculos de pedra, menires e túmulos. Eles irão frequentemente trabalhar em ou perto de vestígios pré-históricos que marcam “caminhos dos espíritos”, “estradas fantasmas”, “estradas de cadáver” ou linhas imaginárias que cruzam a zona rural britânica entre estes “centros de poder” naturais. Embora reconheçam o poder mágico inerente à fauna e à flora, bruxos tradicionais são menos propensos a ser sentimentais em relação ao meio-ambiente do que os neo-pagãos. Tradicionais reconhecem que a natureza pode ser “vermelha nos dentes e na garra”[5] e que as leis naturais são baseadas na “sobrevivência do mais forte”.

Ao contrário de covens wiccanos que são dirigidos por uma Alta-Sacerdotisa com seu Sumo-Sacerdote como consorte e a iniciação é sempre do sexo masculino para o feminino ou feminino para o masculino, covines tradicionais são conduzidos por um líder masculino conhecido como Magister, Mestre ou “Diabo”. Ele pode iniciar homens e mulheres na Arte. Isto se deve à polaridade sexual não ser um aspecto tão importante da Arte Tradicional, e por esta razão, muitos grupos tradicionais são conhecidos como “knowledge covines”. O Magister algumas vezes tem um substituto masculino chamado de Convocador que é responsável por organizar as datas, horas e lugares de encontro. A líder feminina de um covine tradicional é conhecida variavelmente como Magistra, Mestra, Donzela ou Virgem, Senhora, Dama ou Rainha do Sabbat. Alguns grupos também possuem um Verdelet ou Homem Verde cujas atribuições é ensinar aos outros coveners os segredos dos poderes mágicos e as propriedades curativas das ervas, árvores e plantas. Outros papéis dentro de um covine podem incluir o Escriba, o Vidente e a Mistress of the Robes. Em algumas tradições, como a moderna Clã de Tubal Caim fundada pelo falecido Robert Cochraine, é a Donzela ou líder feminina que assume a posição de autoridade.

Dentro das práticas operatórias ou mágicas da bruxaria tradicional, pode ser encontrado o conceito de vôo do espírito (projeção astral) para o Sabbath das Bruxas usando o sabbati unguenti ou “unguento de vôo” feito de plantas narcóticas. Técnicas de visão psíquica, transe, mediunidade, “sonho desperto” e possessão espiritual são também usadas para contatar o Outro Mundo em maneiras familiares às formas étnicas de xamanismo. Elementais e espíritos são invocados e há uma comunhão com o reino das Fadas, o uso de familiares, fethches (o duplo astral de uma bruxa) e espíritos-guia, shapeshifiting em uma forma animal, feitiços e maldições, divinação, necromancia e herbalismo (curar com ervas e plantas).

Bruxas tradicionais abordam a divindade de uma forma duoteísta ou politeísta. As deidades ou espíritos reverenciados na Arte Tradicional são os “deuses do crepúsculo”, os ctônicos associados com os poderes de vida e morte, criação e destruição. Eles também são os que a religião ortodoxa descreve como os “poderes das trevas”. É por isso que, historicamente, a bruxa sempre foi considerada uma pária social e uma rebelde religiosa.

A deusa das bruxas possui um aspecto claro e um escuro. Por esta razão, ela é às vezes associada com a lua crescente e minguante ou com a lua cheia e lua negra e também com o destino e o submundo. Ela pode ser personificada mitologicamente como a Dama Hécate, Diana, Frau Holda, Habondia, Lilith e Titania ou a Rainha das Fadas. O Deus-Chifrudo também é bi-facetado como o Senhor da Floresta Selvagem e o Homem Verde em seu aspecto verão e o Senhor da Caçada Selvagem e Senhor da Morte no inverno. Em termos míticos ele pode ser representado como Herne, Wayland, Puck ou Robin Goodfellow, Caim, Tubal-Caim, Silvanus, Lúcifer, Shemyaza ou Azazel e Oberon ou o Rei dos Elfos. Ele aparece em forma animal como um veado, boi, cabra, carneiro ou um cão preto.

Alguns bruxos tradicionais, no entanto, preferem não associar suas deidades com nenhuma mitologia antiga. Ao contrário, se referem a elas obliquamente em termos genéricos como Os Antigos, Owd Lad e Owd Lass, o Homem Velho e a Mulher Velha, o Senhor e a Senhora, O Cornudo, Velho Chifrudo, o Diabo, a Antiga Dama ou mesmo apenas Ele e Ela.

Embora algumas bruxas e bruxos tradicionais e hereditários (aqueles que pertencem a uma tradição familiar) saíram das sombras nos últimos anos, eles são muito mais relutantes do que wiccanos na procura de publicidade. Eles não são suscetíveis de aparecer na televisão durante o dia vestindo roupas de veludo amassado, carregando um crânio de carneiro e um bastão, agitando espadas e cobertos de jóias ocultistas. Eles geralmente vivem na zona rural e eles frequentemente se parecem surpreendentemente normais, usando roupas comuns e se harmonizando com a paisagem. Porque eles possuem um fundo de conhecimento sobre constelações, fauna e flora, história antiga e local e o clima, pessoas comuns podem apenas achar que elas teem um grande interesse em assuntos do campo, natureza e folclore.

O neo-paganismo obviamente atrai muitas pessoas atualmente, especialmente aquelas buscando uma forma política de tendência “verde” de espiritualidade que cultua a natureza. Entretanto, aqueles que seguem a moderna bruxaria tradicional não são “adoradores da natureza” e alguns, nem mesmo se consideram como “pagãos”. Muitos não crêem que a Arte seja uma religião per se e, certamente, não uma “religião natural”. Pelo contrário, eles a consideram como um culto de mistérios oferecendo uma herança antiga de conhecimento mágico e conhecimento oculto (escondido) proibidos. Ela é um caminho místico que conduz a uma iluminação espiritual e, finalmente, à gnose e união com o Divino. Como tal, ela representa uma lanterna brilhante no escuro para aqueles buscadores dedicados que queiram entrar em contato como os antigos Mistérios no mundo moderno. 

(texto original aqui

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Notas do tradutor:
[1] Cunning people, cunning folk poderiam ser livremente traduzidos como pessoas sábias, sendo arquétipos semelhantes aos “curandeiros” de nossa cultura. 
[2] literalmente “monte oco”, uma colina com um cavidade natural rochosa frontal formando um tipo de gruta.
[3] “vestidos de céu”, expressão wiccana para a nudez ritual.
[4] do folclore britânico, termo para descrever uma criatura ou um principio de ser sensiente. Na literatura fantástica contemporânea os wights são equiparados a morto-vivos.
[5] “red in tooth and claw” no original, expressão inglesa utilizada para fazer alusão aos aspectos insitintivos ou agressivos da natureza, principalmente dos animais.