quinta-feira, 16 de junho de 2011

Diário de Um Bruxo Solitário: A Lua Solitária

"O vermelho da Lua Cheia Eclipsada dá o tom do dia de hoje...
Seria o ápice de todas as suas faces culminando em poder?
Ou o desaparecimento de todas elas para que uma única face pudesse ser reconhecida?
Mistérios...Augúrios...Uivos..."

Ontem a Lua me acordou, estava voltando para casa após um dia terrível no trabalho. Estava dentro do ônibus lotado, estava cochilando de cansaço. E, no meio do caminho, eis que fui tocado pela Rainha dos Céus. Ela estava lá, opaca, flutuando sobre o asfalto da rodovia. Ela estava lá, solitária, ninguém conseguia ouvir sua canção em meio aos automóveis sedentos de velocidade. As sombras a estavam cobrindo, do mesmo modo que elas cobrem a humanidade, e ela parecia querer que alguém velasse por ela - e eu a velei. Em momento de silêncio interior, em meio ao tumulto da massa cuja trivialidade me é insuportável, eu ainda conseguia forças para ser uma Testemunha. 


Mas, não pude sentir todo o Poder do eclipse, não pude render-lhe cerimônia da maneria devida, e lamentei por isso. E enquanto a Senhora parecia crescente embora fosse cheia, me perguntei quem continuará com os Velhos Caminhos? Quem cuidará desta terra e lembrará de seus Espíritos? Quem continuará com os ritos da Lua e do Sol para que a vida se sustente? Pois quando extinguirem-se os ritos, o Sol e a Lua não se levantarão. A vida não passará de uma lembrança e o Vazio se estenderá pela terra e pela alma dos homens. Se a Magia Antiga for extinta, a Lua chorará infinitamente como ontem ela chorou. A humanidade perde seu caminho e sua senciência e a percepção do Sagrado dia após dia, o asfalto asfixia o chão fazendo com que a memória de todos aqueles que pisaram nele um dia se torne inacessível, a morte é banalizada e os Mistérios esquecidos...
A face que a Lua mostrava ontem não era de poder, não era de Mistério. Era de lamento, de solidão. Mas eu estava lá. Nós ainda estaremos lá. Mas e depois de nós?

4 comentários:

  1. Lunna Nigrans.•°°•.16 de junho de 2011 09:12

    Nion eu adoro o teu blog!
    E fico grata por você mencionar meu trecho sobre o Eclipse. Eu, assim como você, não consegui aproveitar a energia desse evento; mas sua influência será sentida de forma gradual. Então teremos tempo para vivenciá-lo, cada qual a sua maneira. Beijo pra ti°

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  2. Nion, que relato maravilhoso. Triste e lindo. Eu perdi o eclipse, e tenho me sentido tão longe da lua que me sinto culpada lendo isso.

    "o asfalto asfixia o chão fazendo com que a memória de todos aqueles que pisaram nele um dia se torne inacessível". *.* (com lágrimas)

    Penso no sangue dos nossos índios, que tem manchado a nossa terra e está se perdendo... no sangue que corre nas minhas veias, sangue de tribos de todo o mundo, sangue dos meus que eu não tenho honrado.

    Vou parar, porque não tá fazendo sentido, né? rs... Enfim, esse relato (lindo) fez com que eu me voltasse pro meu próprio sangue e em como passar isso pro meu filho.

    Abençoado seja.

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  3. Obrigado Lunna, também adoro a sua gruta, e quando li seus sentimentos sobre o eclipse, me inspirei a escrever.

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  4. Juno era exatamente a isto que eu me referi, à memória dos nativos desta terra, ao tempo em que a rodovia ainda era floresta. Ao tempo que nos falta para trabalharmos os nossos ritos. Quem hoje consegue ouvir os sussurros destes antigos povos? Quem um dia ouvirá os nossos sussurros?

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