sexta-feira, 17 de junho de 2011

Diário de Um Bruxo Solitário: A Lua Renascida

"Luna mater dona eros
Mater luna dona eros
Aperio - aperio -
Noctis mysterium"
Aradia, Gaia Consort

Renascida. Majestosa. Soberana. A Rainha da Noite voltou para o seu Povo.
O último eclipse me deixou com uma sensação fúnebre e de desesperança. A Lua parecia triste e pálida, mas, eis que ontem, eu A vi novamente, e o que meus olhos viam era uma Lua cheia revigorada. Ela estava vermelho sangue, o sangue da vida e da morte. Ela havia renascido e este foi o sentido daquele eclipse para mim: a morte temporária da Senhora para que Ela pudesse se retirar momentaneamente do Mundo dos Homens e consultar os Grandes Deuses por Trás dos Deuses ou os Deuses das Brumas. E Ela voltou com toda a Sua realeza. Ela pairava sobre a cidade segura de Seu poder e de Seus domínios.
Com Ela eu também renasci, pois quando decidimos nos conectar com algum corpo celeste ou terrestre, estaremos inevitavelmente ligados à seus ciclos através da instauração de uma simbiose.
A Dama voltou mais forte, mais sábia, mais mágica. Sua Arte não desaparecerá e agora tenho certeza que enquanto alguém ainda olhar para a Lua e deixar-se inebriar por seu elixir prateado, os Mistérios se revelarão e sobreviverão – mesmo que apenas pelos lábios e coração de um poeta.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Diário de Um Bruxo Solitário: A Lua Solitária

"O vermelho da Lua Cheia Eclipsada dá o tom do dia de hoje...
Seria o ápice de todas as suas faces culminando em poder?
Ou o desaparecimento de todas elas para que uma única face pudesse ser reconhecida?
Mistérios...Augúrios...Uivos..."

Ontem a Lua me acordou, estava voltando para casa após um dia terrível no trabalho. Estava dentro do ônibus lotado, estava cochilando de cansaço. E, no meio do caminho, eis que fui tocado pela Rainha dos Céus. Ela estava lá, opaca, flutuando sobre o asfalto da rodovia. Ela estava lá, solitária, ninguém conseguia ouvir sua canção em meio aos automóveis sedentos de velocidade. As sombras a estavam cobrindo, do mesmo modo que elas cobrem a humanidade, e ela parecia querer que alguém velasse por ela - e eu a velei. Em momento de silêncio interior, em meio ao tumulto da massa cuja trivialidade me é insuportável, eu ainda conseguia forças para ser uma Testemunha. 


Mas, não pude sentir todo o Poder do eclipse, não pude render-lhe cerimônia da maneria devida, e lamentei por isso. E enquanto a Senhora parecia crescente embora fosse cheia, me perguntei quem continuará com os Velhos Caminhos? Quem cuidará desta terra e lembrará de seus Espíritos? Quem continuará com os ritos da Lua e do Sol para que a vida se sustente? Pois quando extinguirem-se os ritos, o Sol e a Lua não se levantarão. A vida não passará de uma lembrança e o Vazio se estenderá pela terra e pela alma dos homens. Se a Magia Antiga for extinta, a Lua chorará infinitamente como ontem ela chorou. A humanidade perde seu caminho e sua senciência e a percepção do Sagrado dia após dia, o asfalto asfixia o chão fazendo com que a memória de todos aqueles que pisaram nele um dia se torne inacessível, a morte é banalizada e os Mistérios esquecidos...
A face que a Lua mostrava ontem não era de poder, não era de Mistério. Era de lamento, de solidão. Mas eu estava lá. Nós ainda estaremos lá. Mas e depois de nós?

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Hino aos Ancestrais da Bruxaria

Inspirado pela série de posts sobre ancestralidade do blog Stregheria Prática


I

Ó Inefáveis
Hereges Espíritos abençoados de beleza e poder
A Vós que comeram do fruto proibido
A Vós que roubaram o fogo sagrado
A Vós cujas palavras eram mudas para os ouvidos profanos
A Vós cujos sonhos eram irrealidades para olhos sacrílegos
A Vós cuja canção incitava liberdade insuportável
A Vós abençoados pela Rainha dos pobres e oprimidos
A Vós abençoados pela Senhora dos escravos e marginais
A Vós que teciam milagres sob os auspícios da Lua Cheia
A Vós que ascendiam a reinos celestiais
A Vós que desciam a reinos infernais

II

A Vós que suportavam o peso dos crimes que não cometiam
A Vós que aliviavam o fardo de uma sociedade doentia
A Vós que espalhavam pelo mediterrâneo as sementes da Sabedoria
A Vós que carregavam pelas veias o sangue do homem e das fadas
A Vós cuja mão curava aqueles que tocava
A Vós cujo olhar as feras acalmava
A Vós cujos pés faziam nascer flores por onde caminhavam
A Vós que pela palavra a direção do Vento mudava
A Vós que ao ouvido os Espíritos sussurravam
A Vós cujo coração amava em inocência
A Vós cujo corpo ardia e se entregava em incandescência
A Vós cujo espírito irmanava aos Deuses em transcedência
A Vós cujos conhecimentos no tempo se perderam
A Vós cujos descendentes Vossos nomes esqueceram

III

A Vós da Arte Sábia
A Vós da Arte Maldita
A Vós da Arte Sagrada
A Vós da Arte Proscrita
Este hino é para Vós
A Vós cujo sangue carrego
A Vós as minhas bênçãos eu entrego
A Vós em minh’alma erijo um altar
Para que eu possa no meu íntimo Vos honrar
A Vós cujo legado não nego
Peço para ser, como sois, um Desperto


Nion


detalhe da carta Inheritance,
Magic: The Gathering Card Game

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pérolas aos Orcs

Há momentos em nossas vidas que algumas perguntas nos perseguem e nos forçam a refletir profundamente sobre nosso papel no mundo, na sociedade e na comunidade. Às vezes cansamos, cansamos de ler as mesmas notícias, cansamos de ouvir os mesmos discursos de novo e de novo e de novo. 
Esta é uma declaração: talvez algumas guerras não possam ser ganhas. E, neste momento, eu me lembro de Morgana do romance As Brumas de Avalon, que tanto  fez e lutou para no final reconhecer que tudo fora em vão. Algumas coisas simplesmente parece que precisam acontecer. 
A história dos homens é uma espiral na quais poderes e impérios ascendem e caem. No qual as minorias lutam por seu espaço e que, quando o conquistam, se corrompem. Mas alguns impérios tardam para ruir. E algumas minorias não deveriam se corromper quando conseguisse um lugar ao Sol.
Estou falando de religião, de política, de miopia histórica, de ignorância, de preconceito, de abuso e de poder. Aliás, estas palavras parecem que combinam muito bem juntas. 
Estou falando ainda, de grupos que lutam por seus direitos da forma errada. Que lutam pelos seus direitos com o discurso errado.
Estou me referindo, enfim, a tudo.
Em meio a tanto caos generalizado, pergunto-me até que ponto compensa argumentar? Creio que cada um tem o seu limite, e o meu não é tão grande assim. Nunca fui uma pessoa militante de nada e, confesso, prefiro a misantropia ao convívio à uma sociedade ou grupo estéril, hipócrita, tolo e ignorante. Perdi minha fé.
Não mais lançarei pérolas aos orcs. Não procuramos pelas mesmas respostas. Não procuramos nos mesmos lugares. Lançá-las-ei apenas aos elfos que certamente as apreciarão.
Hoje entendo porque nossos Ancestrais acreditavam que algumas coisas deveriam ser mantidas em segredo.
Hoje entendo porque a Iniciação não é democrática.
Hoje entendo porque Claude Mcdonald certa vez disse que "algumas vezes a maioria simplesmente significa que todos os tolos estão do mesmo lado."