domingo, 3 de abril de 2011

Religião, Bruxaria Pagã e Reconstrucionismo

Diferenças e Equívocos pela Perspectiva de Um Bruxo Pagão

Existe um equívoco muito grande dentro do neopaganismo que é considerar a Wicca e a Bruxaria como religiões e/ou confundí-las com Reconstrucionismo. Enfaticamente, não elas não são religiões e não são Reconstrucionismos! Mas para que isso fique bem claro devemos primeiro entender o que é religião, o que é bruxaria e o que é reconstrucionismo e vamos começar pelo conceito de religião a partir da perspectiva do sociólogo Emile Durkheim:

Ao tomar como objeto a religião, Durkheim tenta estabelecer que ela não suponha necessariamente a crença num Deus transcendente. Ela é antes de tudo um “sistema de crenças e de práticas”. A religião é vista como um fenômeno coletivo, onde ele procura mostrar de forma concludente que não pode haver crenças morais coletivas que não sejam dotadas de um caráter sagrado. Sua existência baseia-se numa distinção essencial entre fenômenos sagrados e profanos. É um conjunto de práticas e representações que vemos em ação tanto nas sociedades modernas quanto nas sociedades primitivas. Portanto, sua sociologia da religião está referida a uma teoria do conhecimento e à questão da coesão social.

Extraído de  Concepção de Religião, Segundo Emile Durkheim, escrito pelo Prof. Francisco Haas in: Dom Total.

Creio que fica bem claro que religião é um fenômeno social, civil, comunitário, de caráter universal - um culto público. Agora vamos pegar a Bruxaria e a Wicca e perceber que elas não possuem este caráter universal, evidenciando, pelo contrário, um caráter individual ligado geralmente à um substrato religioso/cultural - um culto ou prática privada. Entretanto, nada nos impede de dizermos que estas práticas sejam cultos religiosos desde que possuam um conjunto de crenças e práticas e que desenvolvam uma noção de sagrado e profano. 
Villa dos Mistérios, Pompéia
Agora então vamos entender o que realmente é a bruxaria pagã e o que é reconstrucionismo e, para tal empreitada, vamos nos utilizar da religiosidade dos antigos gregos: eles tinham seus cultos públicos e civis - com o caráter de coesão social - mas ao mesmo tempo, alguns sub-grupos da sociedade apresentavam um conjunto de crenças e práticas subjacentes a esta religisosidade “dominante, coletiva e estatal" de caráter individualista e limitada a alguns escolhidos (Iniciados) que são os chamados Cultos de Mistérios - como os Elêusianos, os de Hécate e os Mistérios Órficos. Entende-se aqui a palavra Mistérios como revelações divinas ou sagradas de ordem interior e pessoal em oposição à Religião propriamente dita que se pauta em revelações universais tomadas como verdades absolutas. Então temos um culto religioso à margem da religião principal com um corpo doutrinário, conjunto operacional e código ético e moral próprio em oposição aos institucionalizados da Religião. Isto é o que chamamos de caráter marginal, que não deve ser encarado como  sinônimo de criminoso (embora muitas vezes o era) mas sim como "fora do centro", longe do mainstream. A bruxaria pagã parece nascer  então quando um Culto de Mistérios (coletivo ou até mesmo pessoal) adiciona ou desenvolve elementos de feitiçaria a seu núcleo transformando-se então num Culto de Mistérios mágico-religioso. A Bruxaria tendia a ser mais marginal que os Cultos de Mistérios, devida a sua base mágica e natureza feiticeira pois qualquer tipo de “poder” que se opusesse ao poder estatal ou sacerdotal era temido e mal visto aos olhos da sociedade simplesmente por não ser institucionalizado e regrado. Dentro de uma escala de marginalização sucessiva temos: Religião (extremo centro) - Culto de Mistérios (marginal moderado) - Bruxaria (extrema marginalização). 
Partindo destes princípios, resumidamente, a Bruxaria pagã é a continuidade (não tomar a palavra em seu sentido literal) destes cultos mistéricos mágico-religiosos apenas e não de TODOS os cultos pagãos, enquanto o  Reconstrucionismo é a tentativa de recompor a Religião "civil e pública" de povos pré-cristãos como os gregos, celtas, ibéricos, etc. 
Estes equívocos têm desagradado tantos reconstrucionistas quanto bruxos de fato pois é preciso dar os nomes apropriados aos fenômenos correspondentes - uma questão de identidade cultural e social.

2 comentários:

  1. Esclarecer? hasuhau...Você me confundiu mais, menino. Como assim a Wicca não é religião? A Bruxaria tudo bem. A Bruxaria não ser Wicca, e não ter a ver com Reconstrucionismo, ok. Entendo. Apesar de achar possível existir bruxos reconstrucionistas (que tentam seguir os ritos como os antigos faziam, não?).
    Mas a Wicca é uma religião, não é? Mesmo não tendo cultos públicos e grandes como o catolicismo.

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  2. Juno, a Wicca não é uma religião e nunca foi (ao menos nos parâmetros mais tradicionais), ela é um culto mágico-religioso: uma prática mágica que envolve um alto grau de "religiosidade" pela sua relação com "assuntos sagrados". Dois pontos pesam para a Wicca não ser uma "religião": a) seu caráter não-publico e b) a ausência de um conjunto de crenças que dão lugar a um conjunto de paradigmas que são diretrizes para construção de crenas pessoais.

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