quarta-feira, 20 de abril de 2011

Bruxos de Pavlov

A Bruxaria ainda vive sob inúmeros equívocos. Não é ignorância, pois nunca antes o conhecimento está tão acessível para aquele de boa vontade. Não é ingenuidade, pois há um espírito crítico em cada alma. Mas é mediocridade, a infeliz tendência de propagar tudo o que é aceito pelo senso comum. É condicionamento, o mecanismo de dizer o que as pessoas gostariam de ouvir para que sejamos aceitos porque a aceitação incondicional é o pomo de ouro da maioria dos indivíduos cuja ideia de ter o seu orgulho ferido lhe é pavorosa. São os bruxos de Pavlov que terão sempre os mesmo comportamentos que lhe são esperados para ganhar os reforços positivos que estão acostumados; porque mudança e rejeição são espectros inescrutáveis. Então o que temos é uma estranha e distorcida história contada, equivocados conceitos disseminados que não entram na questão de visão pessoal, mas entram na questão de se ultrapassar os limites do óbvio. Servem hidromel como se fosse vinho. E há aqueles que bebem não sabendo mais distinguir o sabor das uvas do sabor do mel.

 A sensação de pertencer a uma religião ou grupo dominante ou popular ou organizado é muito confortante eu concordo, mas não é conforto que busca uma bruxa. Uma bruxa busca sua própria Verdade, a sensação de voltar para sua própria casa, que se encontra escondida no fundo da floresta tendo os animais selvagens como seus vizinhos e seus únicos confidentes ou no topo da montanha tendo como testemunha de seus dias os Espíritos, as nuvens e as aves de rapina ou à beira do mar tendo o murmuro das águas como sua canção de silêncio. Este e o seu “Sanctum Sanctorum de personalidade”, um estado sublime e mágico de Ser. O maior desafio de uma bruxa para encontrar sua Verdade e seu lugar é lutar contra os condicionamentos impostos pela sociedade.

"Bruxaria é um modo de vida para indivíduos, não para massas; não há razão em vir para a Arte se você é tímida, dependente, covarde ou tola, pois a feitiçaria é tanto uma prática quanto um sacerdócio e não uma vestimenta que pode ser jogada fora quando as coisas ficarem difíceis."
Ly de Angeles, Bruxaria: Teoria e Prática. Editora Gaia

A pergunta que não se cala como um corvo sussurrando sobre os ombros é: você tem coragem o suficiente para aceitar a Bruxaria como um modo de vida? Para andar diferente dos demais? Para livrar-se dos condicionamentos mundanos impostos pela mediocridade? Para ir contra os valores estabelecidos quando for necessário? Para procurar as respostas em lugares ermos, selvagens, indomados pela mão dos tolos que temem aquilo que desconhecem? Para procurar pelas "coisas bonitas com nomes maus"? Para deixar de ser um cachorro de Pavlov? A Bruxaria não é um caminho fácil, não é um caminho para todos. Você tem coragem o suficiente para ser?

terça-feira, 19 de abril de 2011

Diferenças entre Bruxa e Feiticeira

Leitura Recomendada

"Como o próprio nome indica, a Feiticeira é a pessoa que pratica feitiçaria, e por isso, uma simples feiticeira apenas se baseia na prática de feitiços, e não conhece os mundos para além do físico, pois todo o seu trabalho dá-se ao nível do seu corpo [...] A feiticeira, por isso, venera a intervenção divina como uma simples observadora, esperando que a sua adoração vá ao encontro do seu objectivo mágico. O seu percurso é sempre traçado tendo em contra bases religiosas, pois as suas crenças partem de sistemas religiosos, que podem até não constar no Paganismo. Portanto, mesmo no cristianismo podem existir feiticeiras."

"A nomeação de “Bruxa” aparece na inquisição, e não era feita qualquer distinção entre as práticas da feitiçaria e da bruxaria visionária, mas essa distinção existe. A Bruxa difere da Feiticeira no ponto mais importante da Arte, que é a prática da Bruxaria por excelência, ou seja, a Bruxa vai para além do mundo físico, pois ela conhece os diferentes planos de existência, trabalha neles e comunga com eles, tendo plena consciência desses diferentes planos e projectando-se neles. Ao contrário da feiticeira, a bruxa não tem por base crenças religiosas, pois os Deuses nunca são exteriores a si [...] A bruxa sabe o que faz, enquanto a feiticeira espera pela tentativa do que fez."

domingo, 17 de abril de 2011

O Fruto Proibido

"Coma do Fruto Proibido
  E haveis de ser como Deuses!
Coma e haveis de ser Sábio

Disse a serpente à Virgem

Disse a Virgem ao Homem,
Disse o Homem a Seu Filho,
Disse o Filho a Sua Esposa...

E então disseram Eles,
de geração em geração,
até que todos seus Parentes soubessem o Segredo.

E então, Amado, devo dizer- vos:
Coma e haveis de ser Sábio."

One: The Grimoire of the Golden Toad, Chumbley Andrew

Todos os bruxos, ocultistas e filósofos devem comer do Fruto Proibido para alcançarem seus objetivos e, uma vez mordido, não há voltas. O Conhecimento é irresistível, libertador, edificador mas também traz grandes sofrimentos e temores. Este é o tema central desde o Mito de Adão e Eva até os Mitos de Prometeu e Pandora: o Sacrifício, a Liberdade, o Conhecimento e a Dor. Para Eva e Adão o sacrifício foi a perda da Inocência, no sentido de ignorância e não de pureza. A Liberdade e a perda da Inocência trazem a dor. Perceber que toda sua vida fora um mentira. Perceber que toda a sua vida não passou de uma tacanha atuação cujo roteiro não por você fora escrito. Poder escolher causa sofrimento. Viver nossas próprias vidas e tomar nossas próprias decisões traz inquietudes porque não há bodes expiatórios, não há forças exógenas que concorram com nosso arbítrio. Há apenas nós, nossas escolhas. Quando estamos amarrados nas celas da Ignorância é fácil ficarmos em paz com nossa consciência, pois podemos por toda as responsabilidades de nossa vida aos pés de outros: dos deuses, dos pais, dos filhos, dos vizinhos, dos governantes e etc. Uma vez mordido o Fruto Proibido, nossas ilusões se desvanecem. Pois o que é o Éden senão uma ilusão? Mas mesmo nesta Ilusão, nossa Alma clama para bebermos da fonte do Desconhecido, a Serpente se agita dentro de nós. Adão e Eva possuíam um corpo mas não estavam cientes de sua Beleza. Adão e Eva viviam juntos, mas não conheciam o poder do Amor. A Serpente os libertou de um cárcere onde eles viam o Sol mas não sentiam todo o seu calor. Viam a Lua mas não se embebedavam com toda sua poesia. Porque viver na ignorância é viver pela metade. É chorar mas não com todas as lágrimas, é rir mas não com todo o riso. Morder do Fruto Proibido é apenas para os fortes, os corajosos, aqueles que sabem que o Conhecimento será a Chave e o Açoite, que o fascínio da Luz será tão reluzente quanto o abismo das Trevas. Porque quanto mais longe estivermos da praia, mais profundo o oceano será. Quando mordemos o Fruto Proibido, percebemos que não estamos mais na Ilusão do Éden, mas na Beatitude da Ilha Sagrada. O Conhecimento tanto pode fazer-nos sentir tanto Senhores Grandiosos quanto Míseros Escravos destes Arcanos. O Conhecimento pode ser tanto uma Benção quanta uma Maldição. Porém nós, bruxos, destemidos e curiosos por natureza, não resistimos ao Vermelho Escarlate – do Sangue, da Vida e do Amor – que o Fruto Proibido porta. Nossa Benção e nossa Maldição.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Diário de Um Bruxo Solitário: Folhas ao Vento

Ao caminhar até o trabalho pela manhã já pude sentir as mudanças no cheiro do vento. O outono está caminhando em seu curso e o vento está cada dia mais gélido dando sinais que a Natureza está entrando em seu sagrado repouso anual. Passando por uma calçada, bem a minha frente este mesmo vento beijou uma árvore já seca fazendo com que suas folhas sem vida dançassem, ali em minha frente, com graça e leveza.
São estes sutis momentos em que nos são revelados os Mistérios e fiquei a lembrar que também somos ciclos, somos folhas secas ao vento. Há momentos em nossa vida, que também somos carregados pelo Vento e dançamos na vida sem rumo certo como folhas secas. Nestes momentos tentamos resisitir a estas Mãos silenciosas que gentilmente nos impulsiona para o novo e, queremos a todo custo continuarmos secos e velhos agarrado à àrvore. Não conseguimos enxergar que nosso tempo passou; esquecemos-nos que nada se mantém igual para sempre, que é chegado o tempo de deixarmos ir tudo aquilo que não tem mais sentido na vida, todos os hábitos velhos e infrutíferos, os risos de uma piada que já perdeu a graça, as lágrimas de uma tristeza que já não possui mais razão de ser.
Quero ser então, em mais este outono que se cumpre, como folhas secas, deixando que o Sopro dos Deuses me toque e me leve até onde possa escrever um novo destino, que eu seja como as folhas secas que se depositam no solo, se desintegram e nutrem-no para que a Vida se renove.

arte da postagem: detalhe de Autumn Leaves, Sir John Everett Millais

sábado, 9 de abril de 2011

Sangue-Bruxo, Iniciação e o Mito de Caim

Existe um ditado português que diz que "ser feiticeira é para quem quiser, mas ser bruxa é para quem pode" e aqui deve ficar claro a distinção conceitual entre feitiçaria e bruxaria.
O mito do sangue-bruxo está diretamente ligado à um outro adágio de que "uma bruxa nasce bruxa". O sangue-bruxo pode ser passado pela hereditariedade ou conservado através dos processos reecarnatórios. Dentro desta visão, a Iniciação e as experiências que preparam o bruxo para esta não tem por objetivo "transformar a pessoa em um bruxo", mas sim, o fazer recordar-se que ele é um bruxo. A Iniciação e o treinamento têm por objetivo realinhar a alma do bruxo com seu Espírito-Bruxo, com sua Linhagem e com a Egrégora de uma Tradição; é despertar o poder do sangue-bruxo que corre pelo seu corpo e desabrochar as Flores da Magia que repousam em seu Ser que antes eram apenas Sementes repousando no profundo do Self para se proteger do Inverno da Ignorância e da corruptibilidade social.
Dizem que as bruxas são de uma raça antiga cuja história fora contada através de vários mitos de anjos que vieram à Terra e se fascinaram pelas mulheres daqui, as tomaram como amantes e desta união nasceram seres metade humano, metade divino. Uma das lendas mais famosas do sangue-bruxo diz respeito a Caim:

"Segundo conta o livro de Enoque, as artes de transformação dos metais, da cosmética, da agricultura, astronomia e bruxaria, teriam sido ensinados à primeira humanidade por Azazel, o Anjo Caído, que com seus outros guardiões celestes se apaixonaram  pelas mulheres humanas. Um dos filhos desta união foi Caim , filho de Samael e Eva. [...] Desde os gnósticos canaitas até a strega toscana, Caim era, por isso, o primeiro nascido de "sangue-bruxo" em oposição ao grosso da humanidade descendente do barro de Adão através de seu filho Abel."
Gilberto de Lascariz, Ritos e Mistérios Secretos do Wicca. Editora Madras

Afastando-se de conotações judaicas/cristãs, poderíamos dizer que estes "anjos" seriam habitantes de outros mundos, talvez das Estrelas Reais, tão presentes na Stregharia  e em antigos cultos do oriente próximo, ou ainda do País das Fadas tão presente nas lendas célticas, que igualmente teriam iniciado uma raça de seres mestiços. Talvez não devêssemos tomar o mito do sangue-bruxo de uma maneira tão literal, talvez ele reflita apenas sucessões em uma corrente de pessoas que acessaram um conhecimento particular a partir de uniões (não no sentido sexual) com espíritos de outros planos. De qualquer forma, fica óbvia que o tipo de magia sobre o qual se apoia a Bruxaria é a magia espiritual que nasce das alianças e contratos com mundos além deste, estas uniões trazem uma sabedoria o conhecimento peculiares e estes arcanos fazem com que as pessoas que os acessem sejam exilados por vontade própria numa terra livre de ilusões e ignorância.
Apenas ouvem o Chamado aquele que é bruxo, somente continuam no Caminho dos Exilados aqueles que verdadeiramente ouviram o Chamado.  

domingo, 3 de abril de 2011

Religião, Bruxaria Pagã e Reconstrucionismo

Diferenças e Equívocos pela Perspectiva de Um Bruxo Pagão

Existe um equívoco muito grande dentro do neopaganismo que é considerar a Wicca e a Bruxaria como religiões e/ou confundí-las com Reconstrucionismo. Enfaticamente, não elas não são religiões e não são Reconstrucionismos! Mas para que isso fique bem claro devemos primeiro entender o que é religião, o que é bruxaria e o que é reconstrucionismo e vamos começar pelo conceito de religião a partir da perspectiva do sociólogo Emile Durkheim:

Ao tomar como objeto a religião, Durkheim tenta estabelecer que ela não suponha necessariamente a crença num Deus transcendente. Ela é antes de tudo um “sistema de crenças e de práticas”. A religião é vista como um fenômeno coletivo, onde ele procura mostrar de forma concludente que não pode haver crenças morais coletivas que não sejam dotadas de um caráter sagrado. Sua existência baseia-se numa distinção essencial entre fenômenos sagrados e profanos. É um conjunto de práticas e representações que vemos em ação tanto nas sociedades modernas quanto nas sociedades primitivas. Portanto, sua sociologia da religião está referida a uma teoria do conhecimento e à questão da coesão social.

Extraído de  Concepção de Religião, Segundo Emile Durkheim, escrito pelo Prof. Francisco Haas in: Dom Total.

Creio que fica bem claro que religião é um fenômeno social, civil, comunitário, de caráter universal - um culto público. Agora vamos pegar a Bruxaria e a Wicca e perceber que elas não possuem este caráter universal, evidenciando, pelo contrário, um caráter individual ligado geralmente à um substrato religioso/cultural - um culto ou prática privada. Entretanto, nada nos impede de dizermos que estas práticas sejam cultos religiosos desde que possuam um conjunto de crenças e práticas e que desenvolvam uma noção de sagrado e profano. 
Villa dos Mistérios, Pompéia
Agora então vamos entender o que realmente é a bruxaria pagã e o que é reconstrucionismo e, para tal empreitada, vamos nos utilizar da religiosidade dos antigos gregos: eles tinham seus cultos públicos e civis - com o caráter de coesão social - mas ao mesmo tempo, alguns sub-grupos da sociedade apresentavam um conjunto de crenças e práticas subjacentes a esta religisosidade “dominante, coletiva e estatal" de caráter individualista e limitada a alguns escolhidos (Iniciados) que são os chamados Cultos de Mistérios - como os Elêusianos, os de Hécate e os Mistérios Órficos. Entende-se aqui a palavra Mistérios como revelações divinas ou sagradas de ordem interior e pessoal em oposição à Religião propriamente dita que se pauta em revelações universais tomadas como verdades absolutas. Então temos um culto religioso à margem da religião principal com um corpo doutrinário, conjunto operacional e código ético e moral próprio em oposição aos institucionalizados da Religião. Isto é o que chamamos de caráter marginal, que não deve ser encarado como  sinônimo de criminoso (embora muitas vezes o era) mas sim como "fora do centro", longe do mainstream. A bruxaria pagã parece nascer  então quando um Culto de Mistérios (coletivo ou até mesmo pessoal) adiciona ou desenvolve elementos de feitiçaria a seu núcleo transformando-se então num Culto de Mistérios mágico-religioso. A Bruxaria tendia a ser mais marginal que os Cultos de Mistérios, devida a sua base mágica e natureza feiticeira pois qualquer tipo de “poder” que se opusesse ao poder estatal ou sacerdotal era temido e mal visto aos olhos da sociedade simplesmente por não ser institucionalizado e regrado. Dentro de uma escala de marginalização sucessiva temos: Religião (extremo centro) - Culto de Mistérios (marginal moderado) - Bruxaria (extrema marginalização). 
Partindo destes princípios, resumidamente, a Bruxaria pagã é a continuidade (não tomar a palavra em seu sentido literal) destes cultos mistéricos mágico-religiosos apenas e não de TODOS os cultos pagãos, enquanto o  Reconstrucionismo é a tentativa de recompor a Religião "civil e pública" de povos pré-cristãos como os gregos, celtas, ibéricos, etc. 
Estes equívocos têm desagradado tantos reconstrucionistas quanto bruxos de fato pois é preciso dar os nomes apropriados aos fenômenos correspondentes - uma questão de identidade cultural e social.