quinta-feira, 31 de março de 2011

O Espírito da Bruxaria

Nas últimas décadas a bruxaria e o paganismo ganhou popularidade, então é como se de repente tudo fosse bruxaria; se são crenças pré-cristãs então é bruxaria; se evocam-se deuses e fazem uma magia, então é bruxaria; alguém fez um feitiço ou uma simpatia esporádica, então é bruxaria. 
As pessoas esqueceram ou nunca aprenderam o que verdadeiramente é bruxaria, que o  espírito da bruxaria é a Liberdade, liberdade esta que vem da Marginalização. São aqueles caminhos muitas vezes trilhados à sombra da sociedade, das religiões e dos conceitos vigentes que até podem se aproximar do mainstream, mas nunca se fundirá com o mesmo. Bruxaria não é reconstrucionismo. Bruxaria não são crenças e práticas institucionalizadas.
Cada expressão espiritual possui seu próprio caminho para nos aproximar dos Poderes Que São e o da bruxaria é o caminho do êxtase da carne e do espírito, são os caminhos dionisíacos, afrodisíacos, hecatianianos, da paixão, das bacantes, da marginalização; de Circe e seu reinado majestoso em seu próprio mundo; de Morgana desafiando os poderes estabelecidos e até mesmo sua Mestra para buscar seu amor, seu lugar no mundo, seu direito à sua própria vida; de Pã, sua flauta selvagem e seu cortejo de ninfas e sátiros - embora uma Bruxa preze pelo seu legado e honre aqueles que percorreram o Caminho antes, ainda assim ela busca por seu próprio locus. Ela é como o louco do Tarot, sempre sem rumo, sempre em casa.
Os caminhos apolíneos, retos, racionais e institucionalizados definitivamente não combinam com o caminho de uma Bruxa, pois ela é o Espírito da Revolução, a substancia exógena que faz um meio reagir; seus ritos, sua devoção e seu amor deixam impressões únicas na Mente Coletiva transformando a própria sociedade pelo poder de sua simples existência e de  seu Ofício. Ela é o Espírito Iluminado que não deixa a Liberdade morrer, que não sucumbe a maioria simplesmente porque honra sua individualidade. Remetendo Rae Beth, seremos sempre os estranhos, os indesejáveis - vistos muitas vezes como os malditos - condenados a viver sempre com um pé no mundo dos homens e outro no mundo das Fadas, porque as pessoas não entendem a Beleza de nosso caminho e não aceitam que lhes mostramos que elas não precisam ficar atadas aos grilhões da sociedade e religião por toda a vida, não precisam viver à sombra de verdades reveladas, de códigos morais e religiosos forjados por uma minoria e aceitos como universais. Não vivemos na sombra da Luz e tampouco na luminescência das Trevas, mas sim na totalidade, nos tons cinzentos, metálicos, pasteis, no Arco de Iris, a Mensageira. Uma bruxa é uma estrela, ela emite luz própria e nunca será um reflexo de outros corpos. Uma bruxa muitas vezes parecerá contraditória, paradoxa e caótica vivendo ao mesmo tempo sobre valores opostos, e não me admira que as pessoas não consigam entender, pois vivem por paradigmas retilíneos e não circulares de onde a bruxa retira sua inspiração e poder.
Por estes motivos que há toda uma miríade de práticas e crenças que podem ser abrigadas sob o termo Bruxaria o que faz com que uma bruxa certamente possa ser a porta-voz de seu caminho ou até mesmo de sua tradição, mas jamais será porta-voz da bruxaria como um todo, pois ela não lhe pertence. É muito pedir para que preservem a verdadeira base da Bruxaria? Que não institucionalizem, racionalizem, regulem, coloquem diretrizes, rotulem, imponham uma sela num caminho que é nada além de um Cavalo Selvagem sem nenhum Senhor. 

3 comentários:

  1. :D - Muito bom o texto, mas acho a referência ao Crowley uma conexão desnecessária...rs

    Vou linkar seu blog no Diablerie ok?

    Beijinhos queridos, e parabéns por mostrar que sabe pensar por si.

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  2. Realmente estava fora de contexto a referência a Crowley mas já editei esta passagem ^^

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  3. Muito bom o Texto! Vou reproduzir o texto em meu blok para que mais irmãos possam ler, com os devidos créditos e congratulações à você! Muito bom! É até uma crítica às falsas organizações centralizadoras e monopolizadoras.

    Bênçãos de Hécate,
    Aquela que porta a chave.

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