sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Era das Fogueiras, pt. 2

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Questões Comuns Sobre a Era das Fogueiras*

7. Quem foi o responsável pela Era das Fogueiras?
Todo mundo. Todos os seguimentos da sociedade Européia apoiaram os julgamentos das Bruxas: a Igreja, a Inquisição, governo secular, intelectuais, o cidadão "comum", curadores e médicos. Chocantemente, até as próprias Bruxas apoiavam o Era das Fogueiras.

a) A Igreja

A Igreja Cristã fomentava a intensa intolerância religiosa que gerou a perseguição. Começando em 1022, a Igreja iniciou executando “heréticos”, pessoas que discordavam com seus ensinamentos. Quando a Era das Fogueiras começou, Europeus estavam acostumados a assassinar dissidentes religiosos. De fato o método tradicional de matar uma Bruxa (queimando-a numa estaca) era o jeito "comum" de executar heréticos.
A Caça às Bruxas estava diretamente ligada à intolerância religiosa. A perseguição culminou na Reforma, um dos piores períodos de estado de guerra religioso que a Europa jamais experimentou. A Caça às Bruxas foi mais intensa em áreas divididas religiosamente (e.g. Alemanha e Suíça) ou ao longo das fronteiras onde países com diferentes religiões se encontravam (e.g. França oriental e norte da Itália, [países os] quais fazem fronteiras com a Alemanha).
A Igreja pode dizer honestamente que matou poucas Bruxas. Muitas cortes religiosas impuseram penalidades não-letais, como penitência ou aprisionamento. No entanto a Igreja encorajava a intolerância e a estereotipação que causaram os julgamentos e seus costumes de assassinar dissidentes foi diretamente imputado para executar as Bruxas.

b) A Inquisição

A Inquisição interpretou um pequeno, porém crítico papel na Era das Fogueiras. Ao contrário do que você possa ter ouvido, a Inquisição matou muito poucas Bruxas. A Inquisição investigou acusações de bruxaria aproximadamente entre 1300 e 1500, uma época na qual a taxa de mortes foi muito baixa. Após a Reforma, a Inquisição não mais funcionava na maior parte das nações Européias. Então quando o pânico e a histeria varreram a Europa, a Inquisição apenas existia em dois países: Espanha e Itália. Os dois países tiveram um pequeno números de mortes. Na verdade, a Inquisição Espanhola teve a melhor taxa de execução em toda a Era das Fogueiras, matando menos de 1% das Bruxas acusadas. [...]
Isto não significa que as mãos da Inquisição estavam limpas. O Santo Ofício interpretou um papal crucial nas perseguições: ele diabolizou a Bruxaria. Inquisidores definiram a Bruxaria como uma heresia, não uma "superstição" Pagã. Esta única palavra [heresia] ditou a diferença ente vida e morte. Superstição era um pecado menor, merecendo não mais que uma leve penitência. Heréticos eram mortos. Inquisidores como Heinrich Kramer (autor do Malleus Maleficarum) escreveram os primeiros manuais de Caça às Bruxas, tratados que espalharam o medo da Bruxaria por toda a Europa. Finalmente a Inquisição eliminava a Bruxa boa. Ela insistiu que todas as Bruxas conseguiam seu poder através do Demônio, não havendo qualquer coisa como Bruxa boa ou neutra. Até mesmo as pessoas que curavam e adivinhavam tinha vendido suas almas à Satã.

c) Governos seculares

Governos Seculares fizeram a maior parte da matança na Era das Fogueiras. Bruxas sortudas eram julgadas pela Igreja - o verdadeiro condenado teve que comparecer perante um tribunal secular. Tribunais não-religiosos tiveram as piores taxas de absolvição. Tribunais locais eram, no geral, praticamente matadouros, matando até 90% dos acusados. Cortes nacionais (presididas por juízes profissionais) mataram cerca de 30% [dos acusados]. Para comparação, cortes religiosas muitas vezes mataram menos que 1% das pessoas que elas julgaram. Cortes seculares também julgaram muito mais pessoas que as religiosas. Muitas das histerias de Bruxas foram realizadas por oficiais seculares.

d) Intelectuais

Muitos intelectuais apoiaram a Era das Fogueiras. Havia um punhado de críticos como o fidalgo Reginald Scot ou o médico Johann Weyer. Mas a maioria dos juristas, juízes e pessoas da classe alta opoiaram e aceitaram os julgamentos.
De fato, após o século 15, os manuais de Caça às Bruxas foram escritos predominantemente por intelectuais não-religiosos. Os primeiros manuais vieram de inquisidores como Heinrich Kramer, Bernard Gui e Johannes Nider. Mas quando a Reforma surgiu, a Inquisição voltou sua atenção na caçada aos Protestantes, não às Bruxas. Então intelectuais caminharam para tomar o lugar da Inquisição. Homens como o Rei James da Escócia, o juiz Pierre de Lancre e o professor de Direito Jean Bodin escreveram os manuais que eram os mais populares no ápice da perseguição.

e) O "Cidadão Comum"
A Caça às Bruxas gozou de intenso suporte e difusão popular. Camponeses e pessoas comuns foram participantes ativos nos julgamentos. Eles - caçadores não profissionais às Bruxas - iniciaram a maior parte dos julgamentos. O "povo" era a testemunha mais comum contra Bruxas, e ele usualmente cooperava livremente com os oficiais. Parecia que as pessoas ficavam felizes por uma oportunidade de se "vingar" das Bruxas que elas acreditavam que tinham amaldiçoados suas crianças e gado.
A Bruxaria deleitava e fascinava o público. Julgamentos eram espetáculos públicos, geralmente assistidos por centenas e até mesmo milhares de jubilosos espectadores. Quando a Inquisição Espanhola matou seis bruxas em 1610, mais de 30.000 pessoas vieram assistir. A Inquisição teve que construir arquibancadas especiais para acomodar todos os plebeus que queria ver estas Bruxas morrer. Livros sobre Caça às Bruxas vendiam como bolos quentes. Manuais de caça às Bruxas estavam entre os primeiros livros impressos e na Inglaterra panfletos baratos feitos sobre julgamentos das Bruxas contabilizam uma porção significante da primeira literatura popular.
Linchamento e vigilância são os indicadores mais sujos do suporte popular à Caça às Bruxas. O povo frequentemente tomava a lei em suas próprias mãos quando eles pensavam que as cortes não estavam matando as Bruxas rápido o bastante. Estudiosos estimam que em algumas áreas aproximadamente de 20% - 50% de todas as bruxas foram assassinadas por seus vizinhos. Mais comumente, pessoas brutalizavam Bruxas suspeitas. Eles rasgavam seus rostos com facas, esperando quebrar uma “maldição”. Eles assassinavam os “familiares” das Bruxas, jogavam pedras em suas casas, mantinham-nas submersas até elas prometerem remover seus “feitiços”. A violência da ralé retardou e continuou enquanto as classes altas pararam de perscrutar as Bruxas. Na verdade, Bruxas continuam a ser linchadas até hoje, embora muito mais raramente do que no passado.

f) Curadores e médicos
O conhecimento médico era puramente corretivo na Era das Fogueiras. Quando um curador profissional não conseguia curar uma doença, ele ou ela frequentemente colocava a culpa da enfermidade na Bruxaria. Muitos escritores criticaram médicos por fazer isto, mas a mulher-sábia e o curandeiro também o faziam comumente. Bruxas não era o bode expiatório apenas da medicina masculina “estabelecida”; curadoras femininas também culpavam as Bruxas por seus fracassos.
Isso não significa que a maioria dos curadores eram caçadores de Bruxas - muitos se opunham a Era das Fogueiras vorazmente. Médicos como John Cotta e Johann Weyer escreveram críticas ferrenhas dos julgamentos das Bruxas. Os julgamentos de Genova ficaram paralisados após cirurgiões da cidade terem se recusados a achar marcas de Bruxas. Uma corte de médicos convenceu a Imperatriz Maria Tereza a ilegalizar os julgamentos na Hungria. E pelo exame dos primeiros livros sobre casos dos médicos, podemos ver que os médicos normalmente achavam explicações naturais para as doenças. O médico Inglês Richard Napier teve 120 pessoas visitando-o, reclamando que elas foram vítimas de Bruxaria. Ele achou causas naturais para todas as suas enfermidades - nenhum julgamento de Bruxa resultou de nenhum destas acusações.

g) As Bruxas
As Bruxas ativamente apoiaram a Era das Fogueiras. Isto pode vir como um choque para Bruxas modernas. Costumamos a pensar em nós mesmos como inocentes vítimas da perseguição, não como os perseguidores. Mas grandes quantidades de julgamentos e evidências literárias revelam que nós estivemos dos dois lados do muro.
Durante a Era das Fogueiras, a maioria das pessoas acreditava que existiam dois tipos de Bruxas: Bruxas “brancas” e Bruxas “negras”. (Alguns extremistas Cristãos discordavam insistindo que todas as Bruxas eram igualmente “negras”.) Bruxas “brancas” curavam e removiam feitiços, Bruxas “negras” amaldiçoavam e matavam. As Bruxas geralmente se consideravam Bruxas “brancas” ou “boas” - elas sabiam que não eram o tipo malévolo de Bruxa que a Igreja delirava a respeito. Mas elas estavam ávidas a acreditar que realmente havia uma conspiração de Bruxas Satânicas, alguma coisa "lá fora". E elas estavam desejosas para acusar seus vizinhos de pertencerem à conspiração.
Bruxas apoiaram a Era das Fogueiras de duas maneiras. 1) Bruxas curadoras rotineiramente culpavam doenças como magias funestas - mais comum, até mesmo do que os médicos faziam. 2) Bruxas confirmavam enfeitiçamento. Quando uma pessoa suspeitava que estivesse amaldiçoada, a maneira padrão de confirmar era perguntar a uma Bruxa “branca”. Usando divinação, a Bruxa falaria se outra Bruxa era responsável por seus infortúnios. Se fosse, a Bruxa “branca” quebraria a maldição e geralmente adivinhava o nome da Bruxa “má”. Em muitos casos, seus clientes davam meia-volta e impunham cobranças contra a Bruxa “má”. Mais frequentemente, eles simplesmente iam à sua casa e assediavam ou assaltava suas vizinhas malignas. Em ambos os casos, a Bruxa “branca” participa de parte da responsabilidade pela perseguição ou morte da Bruxa “negra”. Sua “opinião” transformou um vago temor de um fazendeiro em um “saber” certo de que ele tinha sido amaldiçoado.
[...]

8. Por que a Era das Fogueiras aconteceu?
Ninguém sabe. Por séculos, pessoas tem procurado por uma explicação simples, lógica, para a Era das Fogueiras. Ninguém jamais achou.
Inúmeras explicações simplistas tem sido propostas. A maioria é orientada à culpa, procurando focar a responsabilidade pelas perseguições em um grupo de bodes expiatórios. Estas teorias são extremamente dualísticas, dividindo o mundo em “caras bons” e “caras maus”. Maus Cristãos perseguiram bons Pagãos. Vis médicos masculinos atacaram suas rivais, a gentis parteiras “sábias”. As forças poluidoras do patriarcado procuraram minar os últimos vestígios do poder da mulher. Nenhumas destas explicações se sustentam sob uma examinação mais de perto. [...]
Todas estas teoristas simplistas ignoram a maciça quantidade de contra-evidências. Por exemplo, pessoas que dizem que a Era das Fogueiras foi uma tentativa da Igreja destruir o Paganismo ignora dois fatos cruciais: a maioria das vítimas eram Cristãs, não Pagãs, e o número de mortes sempre foram menores quando e onde a Igreja conduzia o julgamento. Pessoas que culpam a misoginia negligenciam o fato que absolutamente não há correlação entre o status da mulher e a intensidade da Caça às Bruxas. Sexismo era a norma na Era das Fogueiras, claramente, é simples apontar elementos sexistas no julgamento das Bruxas. Mas os centros de Caça às Bruxas evidentemente não eram mais sexistas do que países que mataram um mero punhado de Bruxas, tampouco o começo ou o término da Era das Fogueiras correlaciona-se com mudanças nos direito das mulheres.
O ponto de partida é, quando você olha para as evidências, muito poucos padrões claros emergem. E aqueles que sobressaem não oferecem nenhuma explicação simples. Por exemplo, a Caças às Bruxas correlaciona-se com as perseguições religiosas - de todo tipo. Os julgamentos atingiram o ponto máximo durante as guerras religiosas da Reforma. Eles foram piores nas áreas onde a Reforma causou maior ruptura.  Eles foram raros nos lugares onde havia apenas uma religião e nenhuma considerável minoria religiosa. Então como podemos interpretar isto? Parece que a intolerância religiosa causou a Caça às Bruxas mas não há evidências que os julgamentos eram uma religião tentando aniquilar outra. Qualquer perseguição religiosa - Protestantes vs. Católicos, Católicos vs. heréticos, Inquisição vs. Pagãos - aumentaram a Caça às Bruxas.
Em anos recentes, muitos estudiosos moveram-se longe de explicações dualistas, orientas à culpa, do passado. Ao invés de verem a Caça às Bruxas como um massacre destinado a um grupo de pessoas, eles a tratam quase como uma doença: um terror nebuloso que pegou em comunidades e ao levou pessoas decentes a fazerem terríveis coisas insanas. Eles procuram pelos fatores que aumentavam as chances de uma comunidade sucumbir à “doença” e traçam aqueles que ajudaram cidades a resistirem à infecção.
Por exemplo, uma Igreja ou Estado forte geralmente diminuíam os julgamentos, enquanto uma comunidade com diversidade religiosa os aumentava. Pânicos eram localizados - quando uma cidade caia em pânico, eram como se seus vizinhos também caíssem. Na verdade, julgamentos de Bruxas espalhavam-se ao longo de estradas e rotas comerciais, assim como as doenças fazem. Viajantes falavam dos horrores que eles haviam vistos, os rumores vorazes dos quais ele haviam ouvidos. E então eles passavam estes temores por toda a região, pra onde quer que fossem.
Talvez a maneira mais fácil de responder a “Por que a Era das Fogueiras ocorreu” é fazer outra pergunta: por que o Pânico Satânista dos anos 80 ocorreu? Por que comunidades americanas repentinamente tornaram-se convencidas de que um culto Satânico criminoso estava lá para prejudicar suas crianças? Novamente, não temos certezas. Mas folcloristas que estudam estes rumores afobados apontam correlações próximas entre a Era das Fogueiras e o Pânico Satânico. E há uma esperança de que estudando nosso próprio comportamento, possamos aprender o que levaram nossos antepassados a cometerem as atrocidades que vemos na Era das Fogueiras. Um espelho pode ser nossa melhor janela para o passado.

9. Por que a Era das Fogueiras parou?
Principalmente porque as pessoas cessaram em acreditar no poder da Bruxaria e na existência de uma conspiração Satânica.
Racionalistas insistiram que magia não fazia sentido. Pessoas simplesmente não podiam fazer o tipo de coisas das quais eram creditadas às Bruxas. Profissionais cresciam cada vez mais suspeitos. Juízes e advogados viam muitos abusos, muitas pessoas morrerem sob ralos tipos de evidencias. Até mesmo pessoas que insistiam que realmente havia uma conspiração Satânica admitiram que centenas de inocentes foram mortos. Muitos decidiram que era melhor deixar escapar o culpado do que perseguir o inocente.
O cidadão comum foi o mais forte advogado da Era das Fogueiras e continuou a demandar julgamentos muito depois que as cortes recusou-se em condenar Bruxas. Linchamento e a violência [por parte] da plebe cresceram no final da Era das Fogueiras e assassinatos e agressões dispersas apimentaram o século 19. Mas sem o apoio das classes altas, as grandes perseguições desapareceram. As pessoas podiam acusar quem elas quisessem de Bruxa - mas se as autoridades não estivessem dispostas a julgar Bruxas, a Era das Fogueiras desapareceria.

*Traduzido por Nion de “Common Questions about the Burning Times” escrito por Jenny Gibbons in: Hall of Remembrance, Summerlands.com

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