segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Crônicas de Bruxaria Urbana: Iniciação de Sarah, pt. 2

por Nion

Tudo ficava cada vez mais escuro, já não havia mais ar, nem batidas de tambor, tampouco calor. Sarah sentia o mundo fechando a sua volta, uma escuridão opressora, Nix, a Noite Eterna, uma das divindades mais primitivas era agora sua única companhia.
            Petrificados pela apreensão e pelo momento de prova, Heitor e Helena assistiam o desenrolar dos acontecimentos distantes; por mais que amassem aquela que se encontrava ali no chão se contorcendo em chagas, nada podiam fazer – era o teste, era a prova pedida pelos deuses e pelos Guardiões. Ainda não era o momento de intervir e talvez o momento nem chegasse.
Na Escuridão Eterna, Sarah agonizava, um gosto férreo inundava sua boca, seu sangue enfurecia em suas veias como se algo quisesse desesperadamente sair. Ela estava morrendo. E ninguém iria ajudá-la. Estava sozinha. Nua e Sem Nome. Filha de Ninguém. Habitante de Lugar Algum. Falhara no teste? Não era sincera como eperava? Talvez sua Sombra tenha a enganado, tão ardilosa e maquiavelicamente que nem ela mesma teria notado.
Já não havia mais tempo, já não havia mais matéria, já não havia mais vida. Do centro da escuridão, uma luz surgia, bem longe, mas Sarah mal podia avistá-la. Um nome lhe veio à mente: Aldebaran. Por breves instantes Sarah tentou abrir os olhos e parecia estar no meio de um salão, estava coroada como uma rainha num trono tão brilhante como o ouro e tão escarlate como as maçãs da Ilha Sagrada. Estava vestida de tecidos tão puros, tão finos, que pareciam sua própria pele. Uma voz ecoou por todo salão:
-Lembra-te de onde veio, ó Princesa. És tu. Foste tu. Quando a Grande Guerra abateu sobre nossa amada terra, tu foste incumbida de não deixar nossos conhecimentos e nossa sabedoria sucumbir e virar pó diante do Tempo. De ser sufocado por entre as ruínas deste Império perdido por entre as estrelas. Foi tu juntamente com os quatro Grandes Reis e Rainhas, soberanos das Estrelas Reais, enviados para uma terra azul e doce como o Primeiro Filho. E levaste convosco vossos mais preciosos servos e quando lá chegaram ensinaram aos homens e mulheres daquelas terras os segredos da feitiçaria. Lembra-te quem fostes.
E durante pequenos instantes, o espírito de Sarah viajou pelo tempo e espaço, em terras esquecidas, consumidas pelo mar, em vilas abandonadas consumidas pelo fogo, e os rostos a encaravam diretamente e Sarah era todos eles.
Uma vez bruxa sempre bruxa. Pensou com espanto. Depois de tantas visões caóticas, Sarah sentia frio, sua alva pele estava exposta a ventos cortantes, estava numa floresta deserta, com arvores imponentes e fadas a espiá-la sorrateiramente. Pra onde iria? Andou sem rumo até que avistara um cavalheiro que lhe estendeu a mão, e lhe cobriu o corpo. Sarah perguntou quem ele era e ele disse apenas:
-Sou você.
Não eram momento para enigmas, mas Sarah realmente sabia no fundo o que estava acontecendo, sentiu um arrepio avassalador, como se algo muito importante estivesse para acontecer. O cavalheiro a colocou num cavalo e disse que a levaria de volta pro mundo dos homens.
E cavalgaram pela floresta e depois por planícies e continuaram por desertos e pântanos. Chegaram por fim a uma caverna abaixo de uma montanha cujo topo se perdia de vista em meio a brumas. Dentro da caverna havia um templo, antigo e rústico. Em suas paredes havia sigilos ininteligíveis por Sarah. Ao fundo avistou duas sombras do que parecia ser uma mulher e um homem, e uma voz lhe disse que era chegado o momento de renascer.
Estavam ali, em sua frente, a Deusa e o Deus da Magia Antiga, porém quanto mais próximo ela chegava Deles mais suas faces lhe tornavam familiares. Quando chegou bem perto viu que quem estavam ali era Heitor e Helena, que sorrindo lhe estendia as mãos. Ela havia passado no teste, os ritos se seguiriam conforme a Tradição. Helena a abraçou e beijou-lhe a face dizendo:
- Seja três vezes bem vinda, Filha dos Antigos. Somente aqueles que renasceram podem adentrar o Círculo de Pedras Antigas.
Heitor lhe beijou os lábios macios e carnudos, um beijo de carinho e ternura e lhe disse:
- Filhas das Estrelas, passara no teste. Os Antigos te aceitaram de volta. Receba a coroa de tua realeza – e, posicionando-se atrás de Sarah, colocou uma corrente de pura prata com um pentagrama em volta de seu pescoço.
Helena a levou até o altar, pegou um jarra de vinho e o verteu lentamente no cálice sagrado instruindo Sarah a fazer o juramento. Sarah diante do cálice disse:
- Assim como o vinho escoa para este cálice, diante do sangue do Nosso Amado Senhor, pelo êxtase e pela uva, que o meu sangue esgote-se de meu corpo se algum dia eu trair meus Irmãos da Arte. – Sarah então bebeu do cálice.
Heitor pegou seu athame e abençoou o pão, e instruiu Sarah a fazer o juramento. Sarah diante do pedaço de pão disse:
- Assim como o athame corta o pão, diante do corpo de Nossa Amada Senhora, pela fertilidade e pelo grão, que o meu corpo seja dilacerado se algum dia eu trair meus Deuses da Arte. Após o juramento Heitor disse para Sarah:
- É valido e sincero o juramento que acabara de fazer diante de teus irmão e deuses?
Sarah acenou com a cabeça e disse sim e Heitor continuou:
- Confirma os seus votos, nesta vida, sabendo que seu juramento ecoará em suas vidas futuras?
Sarah consentiu com a cabeça e disse sim novamente; diante da confirmação Heitor estendeu as mãos em direção de Sarah e disse:
- Eu te confirmo, És uma Filha das Estrelas, do Sol e da Lua. Estás agora a serviço dos Antigos. Mas saiba que este não é o final, mas apenas o começo de tua jornada.
E Sarah foi iniciada nos Antigos Mistérios sabendo que a Iniciação não era o final de sua caminhada, mas apenas o começo de sua vida como uma Bruxa.


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