sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sumário: Animais na Magia

Muito se fala em animal guardião nas práticas mágicas neopagãs, porém o termo é genérico e muito abrangente, sendo usado para descrever várias situações envolvendo animais na magia e outras práticas espirituais:

Alma animal/animal totem: parte de nossa alma que mantém conexão direta com a natureza. Exteriorização/corporificação de nosso “eu” instintivo, selvagem. Por esta razão, o animal totem nunca será um animal doméstico, pois não nos daria este arquétipo selvagem. 

Espírito animal/animal guardião: diferente do animal totem, o espírito animal é, como o próprio nome indica, um espírito de um animal que nos acompanha nesta vida como um espírito guia e possui funções semelhantes a este. Não podemos ignorar também a existência de espírito animais que assombram lugares como os animais-fantasmas ou pessoas como  os animais-obssessores.

Animal familiar: é um animal encarnado que nos acompanha nas práticas mágicas. Geralmente é um animal de estimação. Historicamente, os gatos ficaram famosos por ajudar as bruxas em suas práticas e na Era das Fogueiras muitos foram mortos juntos à suas donas. Se um familiar desencarna e continua a acompanhar a bruxa, então ele se torna um Espírito Animal.

Animal elementar: fruto de uma magia, na qual o magista cria um elementar* em forma de um animal. Facilmente confundido com um espírito animal, mas a diferença é que o animal elementar não possui vontade própria nem essência independente do seu criador.

Animal áurico: parecido com o conceito de animal elementar, porém, aqui o magista manipula sua própria aura para que ela se pareça com algum animal – geralmente seu próprio animal totem ou guardião 

Curiosidade: na série Harry Potter, um feitiço poderoso chamado Expectro Patronum consiste na exteriorização dos sentimentos mais felizes do bruxo na forma de um animal, um tipo de manipulação energética usando técnica semelhante à do animal áurico e do animal elementar.

Avatar animal: uma manifestação astral ou até mesmo material de um deus em forma de animal para ajudar, guiar (ou mesmo prejudicar) os mortais. Também pode ser um animal "normal" enviado por um deus como um mensageiro. Na mitologia  são famosos os casos dos avatares animais como no caso de Zeus se disfarçando de cisne  para seduzir Leda.


Agradecimentos especiais à D.Lobo [DomeniK Lupin] ,cuja visão sobre o tema fora essencial para que eu tivesse aberto meus horizontes.
_____________
*Elementar: é um tipo de elemental/espírito artificial, criado por um humano.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Antiga Graça Wiccaniana


Uma das mais belas orações wiccanianas tradicionais que já publicada. Segundo a fonte consultada* foi encontrada nos trabalhos de Lady Sheba, e há atualmente uma discussão sobre sua origem, especulando-se que seja uma tradução de um documento do século 13; também há a similaridade  com o estilo de narrativa de Valiente, supondo que seja uma criação da mesma. De qualquer modo, é um belíssima oração e, devido a seu estilo leve e jubiloso, é perfeita para momentos de adoração e/ou quando  precisarmos de mais alegria em nossas vidas. 


“Responda-nos, ó Antigo Cornudo,
Provisão e poder são teus.
Ouça e responda, Graciosa Deusa,
Dai-nos o riso, juízo e vinho,
Desça sobre nós, ó Tu de bênçãos,
Venha entre nós, nos faz feliz.
Desde que Tú Chefia a arte de nossa criação,
Por que, ó Porque devemos de ser tristes?
Irradie sobre nós, ó jubiloso Baco,
Bane o  coração pesado de ódio.
Aceite a nossa Arte, ó Grandiosa Mãe,
Deixe o alegre brilho ser o nosso destino.
Que assim seja!”


* lista de discussão Gardnerian_all

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Era das Fogueiras, pt. 2

<< parte 1

Questões Comuns Sobre a Era das Fogueiras*

7. Quem foi o responsável pela Era das Fogueiras?
Todo mundo. Todos os seguimentos da sociedade Européia apoiaram os julgamentos das Bruxas: a Igreja, a Inquisição, governo secular, intelectuais, o cidadão "comum", curadores e médicos. Chocantemente, até as próprias Bruxas apoiavam o Era das Fogueiras.

a) A Igreja

A Igreja Cristã fomentava a intensa intolerância religiosa que gerou a perseguição. Começando em 1022, a Igreja iniciou executando “heréticos”, pessoas que discordavam com seus ensinamentos. Quando a Era das Fogueiras começou, Europeus estavam acostumados a assassinar dissidentes religiosos. De fato o método tradicional de matar uma Bruxa (queimando-a numa estaca) era o jeito "comum" de executar heréticos.
A Caça às Bruxas estava diretamente ligada à intolerância religiosa. A perseguição culminou na Reforma, um dos piores períodos de estado de guerra religioso que a Europa jamais experimentou. A Caça às Bruxas foi mais intensa em áreas divididas religiosamente (e.g. Alemanha e Suíça) ou ao longo das fronteiras onde países com diferentes religiões se encontravam (e.g. França oriental e norte da Itália, [países os] quais fazem fronteiras com a Alemanha).
A Igreja pode dizer honestamente que matou poucas Bruxas. Muitas cortes religiosas impuseram penalidades não-letais, como penitência ou aprisionamento. No entanto a Igreja encorajava a intolerância e a estereotipação que causaram os julgamentos e seus costumes de assassinar dissidentes foi diretamente imputado para executar as Bruxas.

b) A Inquisição

A Inquisição interpretou um pequeno, porém crítico papel na Era das Fogueiras. Ao contrário do que você possa ter ouvido, a Inquisição matou muito poucas Bruxas. A Inquisição investigou acusações de bruxaria aproximadamente entre 1300 e 1500, uma época na qual a taxa de mortes foi muito baixa. Após a Reforma, a Inquisição não mais funcionava na maior parte das nações Européias. Então quando o pânico e a histeria varreram a Europa, a Inquisição apenas existia em dois países: Espanha e Itália. Os dois países tiveram um pequeno números de mortes. Na verdade, a Inquisição Espanhola teve a melhor taxa de execução em toda a Era das Fogueiras, matando menos de 1% das Bruxas acusadas. [...]
Isto não significa que as mãos da Inquisição estavam limpas. O Santo Ofício interpretou um papal crucial nas perseguições: ele diabolizou a Bruxaria. Inquisidores definiram a Bruxaria como uma heresia, não uma "superstição" Pagã. Esta única palavra [heresia] ditou a diferença ente vida e morte. Superstição era um pecado menor, merecendo não mais que uma leve penitência. Heréticos eram mortos. Inquisidores como Heinrich Kramer (autor do Malleus Maleficarum) escreveram os primeiros manuais de Caça às Bruxas, tratados que espalharam o medo da Bruxaria por toda a Europa. Finalmente a Inquisição eliminava a Bruxa boa. Ela insistiu que todas as Bruxas conseguiam seu poder através do Demônio, não havendo qualquer coisa como Bruxa boa ou neutra. Até mesmo as pessoas que curavam e adivinhavam tinha vendido suas almas à Satã.

c) Governos seculares

Governos Seculares fizeram a maior parte da matança na Era das Fogueiras. Bruxas sortudas eram julgadas pela Igreja - o verdadeiro condenado teve que comparecer perante um tribunal secular. Tribunais não-religiosos tiveram as piores taxas de absolvição. Tribunais locais eram, no geral, praticamente matadouros, matando até 90% dos acusados. Cortes nacionais (presididas por juízes profissionais) mataram cerca de 30% [dos acusados]. Para comparação, cortes religiosas muitas vezes mataram menos que 1% das pessoas que elas julgaram. Cortes seculares também julgaram muito mais pessoas que as religiosas. Muitas das histerias de Bruxas foram realizadas por oficiais seculares.

d) Intelectuais

Muitos intelectuais apoiaram a Era das Fogueiras. Havia um punhado de críticos como o fidalgo Reginald Scot ou o médico Johann Weyer. Mas a maioria dos juristas, juízes e pessoas da classe alta opoiaram e aceitaram os julgamentos.
De fato, após o século 15, os manuais de Caça às Bruxas foram escritos predominantemente por intelectuais não-religiosos. Os primeiros manuais vieram de inquisidores como Heinrich Kramer, Bernard Gui e Johannes Nider. Mas quando a Reforma surgiu, a Inquisição voltou sua atenção na caçada aos Protestantes, não às Bruxas. Então intelectuais caminharam para tomar o lugar da Inquisição. Homens como o Rei James da Escócia, o juiz Pierre de Lancre e o professor de Direito Jean Bodin escreveram os manuais que eram os mais populares no ápice da perseguição.

e) O "Cidadão Comum"
A Caça às Bruxas gozou de intenso suporte e difusão popular. Camponeses e pessoas comuns foram participantes ativos nos julgamentos. Eles - caçadores não profissionais às Bruxas - iniciaram a maior parte dos julgamentos. O "povo" era a testemunha mais comum contra Bruxas, e ele usualmente cooperava livremente com os oficiais. Parecia que as pessoas ficavam felizes por uma oportunidade de se "vingar" das Bruxas que elas acreditavam que tinham amaldiçoados suas crianças e gado.
A Bruxaria deleitava e fascinava o público. Julgamentos eram espetáculos públicos, geralmente assistidos por centenas e até mesmo milhares de jubilosos espectadores. Quando a Inquisição Espanhola matou seis bruxas em 1610, mais de 30.000 pessoas vieram assistir. A Inquisição teve que construir arquibancadas especiais para acomodar todos os plebeus que queria ver estas Bruxas morrer. Livros sobre Caça às Bruxas vendiam como bolos quentes. Manuais de caça às Bruxas estavam entre os primeiros livros impressos e na Inglaterra panfletos baratos feitos sobre julgamentos das Bruxas contabilizam uma porção significante da primeira literatura popular.
Linchamento e vigilância são os indicadores mais sujos do suporte popular à Caça às Bruxas. O povo frequentemente tomava a lei em suas próprias mãos quando eles pensavam que as cortes não estavam matando as Bruxas rápido o bastante. Estudiosos estimam que em algumas áreas aproximadamente de 20% - 50% de todas as bruxas foram assassinadas por seus vizinhos. Mais comumente, pessoas brutalizavam Bruxas suspeitas. Eles rasgavam seus rostos com facas, esperando quebrar uma “maldição”. Eles assassinavam os “familiares” das Bruxas, jogavam pedras em suas casas, mantinham-nas submersas até elas prometerem remover seus “feitiços”. A violência da ralé retardou e continuou enquanto as classes altas pararam de perscrutar as Bruxas. Na verdade, Bruxas continuam a ser linchadas até hoje, embora muito mais raramente do que no passado.

f) Curadores e médicos
O conhecimento médico era puramente corretivo na Era das Fogueiras. Quando um curador profissional não conseguia curar uma doença, ele ou ela frequentemente colocava a culpa da enfermidade na Bruxaria. Muitos escritores criticaram médicos por fazer isto, mas a mulher-sábia e o curandeiro também o faziam comumente. Bruxas não era o bode expiatório apenas da medicina masculina “estabelecida”; curadoras femininas também culpavam as Bruxas por seus fracassos.
Isso não significa que a maioria dos curadores eram caçadores de Bruxas - muitos se opunham a Era das Fogueiras vorazmente. Médicos como John Cotta e Johann Weyer escreveram críticas ferrenhas dos julgamentos das Bruxas. Os julgamentos de Genova ficaram paralisados após cirurgiões da cidade terem se recusados a achar marcas de Bruxas. Uma corte de médicos convenceu a Imperatriz Maria Tereza a ilegalizar os julgamentos na Hungria. E pelo exame dos primeiros livros sobre casos dos médicos, podemos ver que os médicos normalmente achavam explicações naturais para as doenças. O médico Inglês Richard Napier teve 120 pessoas visitando-o, reclamando que elas foram vítimas de Bruxaria. Ele achou causas naturais para todas as suas enfermidades - nenhum julgamento de Bruxa resultou de nenhum destas acusações.

g) As Bruxas
As Bruxas ativamente apoiaram a Era das Fogueiras. Isto pode vir como um choque para Bruxas modernas. Costumamos a pensar em nós mesmos como inocentes vítimas da perseguição, não como os perseguidores. Mas grandes quantidades de julgamentos e evidências literárias revelam que nós estivemos dos dois lados do muro.
Durante a Era das Fogueiras, a maioria das pessoas acreditava que existiam dois tipos de Bruxas: Bruxas “brancas” e Bruxas “negras”. (Alguns extremistas Cristãos discordavam insistindo que todas as Bruxas eram igualmente “negras”.) Bruxas “brancas” curavam e removiam feitiços, Bruxas “negras” amaldiçoavam e matavam. As Bruxas geralmente se consideravam Bruxas “brancas” ou “boas” - elas sabiam que não eram o tipo malévolo de Bruxa que a Igreja delirava a respeito. Mas elas estavam ávidas a acreditar que realmente havia uma conspiração de Bruxas Satânicas, alguma coisa "lá fora". E elas estavam desejosas para acusar seus vizinhos de pertencerem à conspiração.
Bruxas apoiaram a Era das Fogueiras de duas maneiras. 1) Bruxas curadoras rotineiramente culpavam doenças como magias funestas - mais comum, até mesmo do que os médicos faziam. 2) Bruxas confirmavam enfeitiçamento. Quando uma pessoa suspeitava que estivesse amaldiçoada, a maneira padrão de confirmar era perguntar a uma Bruxa “branca”. Usando divinação, a Bruxa falaria se outra Bruxa era responsável por seus infortúnios. Se fosse, a Bruxa “branca” quebraria a maldição e geralmente adivinhava o nome da Bruxa “má”. Em muitos casos, seus clientes davam meia-volta e impunham cobranças contra a Bruxa “má”. Mais frequentemente, eles simplesmente iam à sua casa e assediavam ou assaltava suas vizinhas malignas. Em ambos os casos, a Bruxa “branca” participa de parte da responsabilidade pela perseguição ou morte da Bruxa “negra”. Sua “opinião” transformou um vago temor de um fazendeiro em um “saber” certo de que ele tinha sido amaldiçoado.
[...]

8. Por que a Era das Fogueiras aconteceu?
Ninguém sabe. Por séculos, pessoas tem procurado por uma explicação simples, lógica, para a Era das Fogueiras. Ninguém jamais achou.
Inúmeras explicações simplistas tem sido propostas. A maioria é orientada à culpa, procurando focar a responsabilidade pelas perseguições em um grupo de bodes expiatórios. Estas teorias são extremamente dualísticas, dividindo o mundo em “caras bons” e “caras maus”. Maus Cristãos perseguiram bons Pagãos. Vis médicos masculinos atacaram suas rivais, a gentis parteiras “sábias”. As forças poluidoras do patriarcado procuraram minar os últimos vestígios do poder da mulher. Nenhumas destas explicações se sustentam sob uma examinação mais de perto. [...]
Todas estas teoristas simplistas ignoram a maciça quantidade de contra-evidências. Por exemplo, pessoas que dizem que a Era das Fogueiras foi uma tentativa da Igreja destruir o Paganismo ignora dois fatos cruciais: a maioria das vítimas eram Cristãs, não Pagãs, e o número de mortes sempre foram menores quando e onde a Igreja conduzia o julgamento. Pessoas que culpam a misoginia negligenciam o fato que absolutamente não há correlação entre o status da mulher e a intensidade da Caça às Bruxas. Sexismo era a norma na Era das Fogueiras, claramente, é simples apontar elementos sexistas no julgamento das Bruxas. Mas os centros de Caça às Bruxas evidentemente não eram mais sexistas do que países que mataram um mero punhado de Bruxas, tampouco o começo ou o término da Era das Fogueiras correlaciona-se com mudanças nos direito das mulheres.
O ponto de partida é, quando você olha para as evidências, muito poucos padrões claros emergem. E aqueles que sobressaem não oferecem nenhuma explicação simples. Por exemplo, a Caças às Bruxas correlaciona-se com as perseguições religiosas - de todo tipo. Os julgamentos atingiram o ponto máximo durante as guerras religiosas da Reforma. Eles foram piores nas áreas onde a Reforma causou maior ruptura.  Eles foram raros nos lugares onde havia apenas uma religião e nenhuma considerável minoria religiosa. Então como podemos interpretar isto? Parece que a intolerância religiosa causou a Caça às Bruxas mas não há evidências que os julgamentos eram uma religião tentando aniquilar outra. Qualquer perseguição religiosa - Protestantes vs. Católicos, Católicos vs. heréticos, Inquisição vs. Pagãos - aumentaram a Caça às Bruxas.
Em anos recentes, muitos estudiosos moveram-se longe de explicações dualistas, orientas à culpa, do passado. Ao invés de verem a Caça às Bruxas como um massacre destinado a um grupo de pessoas, eles a tratam quase como uma doença: um terror nebuloso que pegou em comunidades e ao levou pessoas decentes a fazerem terríveis coisas insanas. Eles procuram pelos fatores que aumentavam as chances de uma comunidade sucumbir à “doença” e traçam aqueles que ajudaram cidades a resistirem à infecção.
Por exemplo, uma Igreja ou Estado forte geralmente diminuíam os julgamentos, enquanto uma comunidade com diversidade religiosa os aumentava. Pânicos eram localizados - quando uma cidade caia em pânico, eram como se seus vizinhos também caíssem. Na verdade, julgamentos de Bruxas espalhavam-se ao longo de estradas e rotas comerciais, assim como as doenças fazem. Viajantes falavam dos horrores que eles haviam vistos, os rumores vorazes dos quais ele haviam ouvidos. E então eles passavam estes temores por toda a região, pra onde quer que fossem.
Talvez a maneira mais fácil de responder a “Por que a Era das Fogueiras ocorreu” é fazer outra pergunta: por que o Pânico Satânista dos anos 80 ocorreu? Por que comunidades americanas repentinamente tornaram-se convencidas de que um culto Satânico criminoso estava lá para prejudicar suas crianças? Novamente, não temos certezas. Mas folcloristas que estudam estes rumores afobados apontam correlações próximas entre a Era das Fogueiras e o Pânico Satânico. E há uma esperança de que estudando nosso próprio comportamento, possamos aprender o que levaram nossos antepassados a cometerem as atrocidades que vemos na Era das Fogueiras. Um espelho pode ser nossa melhor janela para o passado.

9. Por que a Era das Fogueiras parou?
Principalmente porque as pessoas cessaram em acreditar no poder da Bruxaria e na existência de uma conspiração Satânica.
Racionalistas insistiram que magia não fazia sentido. Pessoas simplesmente não podiam fazer o tipo de coisas das quais eram creditadas às Bruxas. Profissionais cresciam cada vez mais suspeitos. Juízes e advogados viam muitos abusos, muitas pessoas morrerem sob ralos tipos de evidencias. Até mesmo pessoas que insistiam que realmente havia uma conspiração Satânica admitiram que centenas de inocentes foram mortos. Muitos decidiram que era melhor deixar escapar o culpado do que perseguir o inocente.
O cidadão comum foi o mais forte advogado da Era das Fogueiras e continuou a demandar julgamentos muito depois que as cortes recusou-se em condenar Bruxas. Linchamento e a violência [por parte] da plebe cresceram no final da Era das Fogueiras e assassinatos e agressões dispersas apimentaram o século 19. Mas sem o apoio das classes altas, as grandes perseguições desapareceram. As pessoas podiam acusar quem elas quisessem de Bruxa - mas se as autoridades não estivessem dispostas a julgar Bruxas, a Era das Fogueiras desapareceria.

*Traduzido por Nion de “Common Questions about the Burning Times” escrito por Jenny Gibbons in: Hall of Remembrance, Summerlands.com

A Era das Fogueiras, pt. 1

"Era das Fogueiras" é o nome que wiccannianos e bruxos atuais dão ao período históricamente denominado por Caça às Bruxas (with-hunt) , erroneamente confundida com a Inquisição per se. O nome é uma maneira de honrar as vítimas deste massacre.

Muito se especula sobre este triste evento da história da bruxaria, e o nome aparece com profusão em escritos e livros da Arte, mas o que salta aos olhos é o quão as informações (curtas e superficiais) sobre o tema se apresentam de forma tendenciosa e equivocada, faltando-lhe embasamento histórico e coerência contextual. Diante de tal realidade, Jenny Gibbons, uma escrupulosa historiadora e estudiosa sobre Bruxaria, os Celtas e assuntos esotéricos, foi além da superfície, indo diretamente a fonte para nos ajudar a entender o que é fato e o que é ficção no que tange a conversão Cristã da Europa Ocidental, magia medieval e a Era das Fogueiras:

Questões Comuns sobre a Era das Fogueiras*

1.O que é a “Era das Fogueiras”?
A “Era das Fogueiras” é um período no final da Idade Média e no começo da Era Moderna quando Bruxas foram ferozmente perseguidas por toda a Europa. O termo apareceu primeiramente nos escritos de Bruxas do século 20. Historiadores geralmente se referem a Era das Fogueiras como "A Grande Caça Européia às Bruxas" ou "A histeria das Bruxas da Europa"

2.O que é uma Bruxa?
Hoje, Bruxaria é uma religião orientada à natureza. Historicamente, a palavra "Bruxa" simplesmente se referia a alguém com poderes mágicos. Qualquer usuário de magia podia ser chamado de Bruxa independente de sua religião. Havia Bruxas Católicas, Bruxas Protestantes, e Bruxas Pagãs - e Bruxas que não se encaixavam nestes buracos-de-pombo!
Infelizmente, historiadores usam a palavra "Bruxa" um pouco diferente do que a maioria das pessoas a usam. Quando historiadores falam sobre Bruxas, eles geralmente querem dizer "criminosos mágicos" (pessoas acusadas de usarem magias prejudiciais) ou Diabolistas (pessoas acusadas de cultuar o Diabo Cristão).
Bruxas "brancas" ao contrário, são simplesmente chamadas de "simples feiticeiras".
As diferenças entre os significados comuns e acadêmicos de "Bruxa" cria uma grande quantidade de confusão. Livros de história sobre Bruxaria apenas fornecem metade da estória: eles te falam como era a vida para Bruxas que eram acusadas de feitiçaria diabólica ou criminal. Eles não te falam como era a vida para o curador, adivinho, mulher sábia, médico de fadas, curandeiro - porque muitos dos historiadores modernos não consideram estas pessoas Bruxas "reais". Leitores erroneamente assumem que todas as Bruxas se deparam com os tipos de perseguição e horror mostrado nos julgamentos de Bruxaria.

3.Quando foi o Era das Fogueiras
De 1300 a 1800 [e.c]. Alguns historiadores estudam apenas o apogeu dos julgamentos (1550-1650), a época quando a histeria e o pânico varreram a Europa. Muitos, no entanto, começam o seu estudo no século 14, quando Cristãos primeiro designaram Bruxaria como heresia.
Antes de 1300, julgamentos de Bruxas eram raros. O único tipo de Bruxaria punida severamente na Idade Média era a magia prejudicial. Medievais focavam no que você fazia com sua magia. Para eles, realmente não importava se você matou alguém com um feitiço ou espada. De qualquer modo, você era um assassino. Tudo isto mudou no século 14 quando teólogos Cristãos começaram a demonizar a Bruxaria, insistindo que não havia este negócio de Bruxa neutra ou não-herética. Sob estas novas teorias Bruxas eram simplesmente pessoas com poderes incomuns: elas eram Satanistas que venderam sua alma para o Demônio em troca de um poder terreno.
Em pior situação, lá pelo século 15 alguns estudiosos Cristãos teorizaram que Bruxas pertenciam a uma enorme conspiração Satânica. Durante a Idade Média, Cristãos pensaram que as Bruxas trabalhavam sozinhas ou em pequenos grupos isolados. Bruxas eram “equivocadas” vítimas de “superstições Pagãs”, mas elas eram particularmente perigosas. No início do período moderno, no entanto, intelectuais Cristãos teorizaram que todas as bruxas trabalhavam em conjunto, que elas eram uma sanguinária conspiração organizada - os inimigos mortais do Cristianismo. O medo desta não-existente conspiração cresceu devagar ao longo dos próximos 150 anos, e o número de julgamentos de Bruxas aumentaram gradualmente durante os séculos 14 e 15.
Mas o ápice da perseguição veio com a Reforma do século 16. O aumento da corrupção da Igreja irritou muitos Cristãos, e eventualmente manifestantes ("chamados Protestantes") apartaram da Igreja Católica e formaram suas próprias igrejas. Esta divisão, chamada de Reforma, engatilhou um século de intenso estado de guerra e perseguição.
Por razões que não compreendemos inteiramente, a Reforma causou um intenso números de julgamentos de Bruxas como um foguete. Antes da Reforma, havia um par de julgamentos maciços, mas os julgamentos tenderam por ser pequenos e isolados. Durante a Reforma, um enorme pânico (histeria das bruxas) varre a maior parte das nações européias. Perseguições foram piores entre 1550-1650. E abrandaram de 1650 a 1700 e caiu para um respingo no século 18 (na maior parte dos países, de algum modo). A última Bruxa européia foi executada em 1793.

4.Onde a Era das Fogueiras ocorreram?
Por toda a Europa e nas colônias britânicas da América. A perseguição foi mais intensa na Europa central, e geralmente ficava mais branda à medida que você viajava pra fora desta área.
A pior Caça às Bruxas ocorreu na Alemanha, Suíça, França, Escócia e (talvez) Polônia. Milhares de Bruxas foram mortas em cada um destes países. Na Alemanha foi o maior impacto. Aproximadamente metade de todas as Bruxas mortas na Era das Fogueiras eram alemãs - uma estimativa de 25.000 pessoas tem-se dito.
Uma Caça às Bruxas moderada ocorreu na Inglaterra, Itália, Espanha, Hungria, Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia. Em todos estes países, centenas de Bruxas morreram. Portugal, Irlanda, Islândia, os Países Bálticos, Rússia e América queimaram menos que 100 bruxas cada.
[...]

5. Quantas Bruxas morreram na Era das Fogueiras?
Provavelmente entre 40.000 e 60.000. Alguns estudiosos estimam que até 100.000 pessoas possam ter morrido, mas isso é muito elevado à medida que atuais estimativas atuais ocorrem.
As primeiras estimativas eram muito altas. Quando tínhamos uma pequena informação sobre os julgamentos das Bruxas, estudiosos costumavam achar que centenas de milhares de Bruxas foram mortas. Entretanto, entre 1977 e 1981 um fluxo de novas informações tornou-se disponível. Por causa delas, as estimativas dos estudiosos caíram de centenas de milhares para dezenas de milhares. [...]
Infelizmente, muitos escritores populares não estão cientes desta nova informação. Eles se agarram  números mais velhos e sensacionalistas, não percebem quão pouca evidência há para suportá-los. Como resultado, há uma tonelada de informações errôneas disponíveis e você irá ouvir estimativas descontroladamente irreais sobre o número de mortes da Era das Fogueiras. Mas novamente, especialistas geralmente concordam que o número de mortes caiu pra entre 40.000 e 60.000; poucos conjeturam que até 100.000 morreram.

6. Quem era acusado de Bruxaria?
Qualquer um podia ser acusado de Bruxaria. Nem mesmo o Papa estava seguro - Bonifácio VIII foi acusado em 1303. Entretanto havia algumas poucas generalizações que podemos fazer sobre a Bruxa “padrão”.
A maioria das Bruxas foram mulheres. Mulheres compunham aproximadamente 80% das acusações, embora isto tenha variado dramaticamente em diferentes épocas e lugares. Homens eram mais comuns nos primeiros julgamentos, compreendendo um terço daquelas [pessoas] acusadas antes de 1500. Alguns países nórdicos mataram tanto homens quanto mulheres, ou mais. Na Islândia, por exemplo, 95% das Bruxas mortas foram homens. Mas os centros das perseguições mataram de longe mais mulheres que homens, algumas vezes cerca de 20 mulheres para cada homem.
Acusadas de serem Bruxas vinham de todas as religiões. A maioria parecem ter sido Cristãs, um pequeno número eram Pagãs ou Cristo-pagãs. As bruxas foram principalmente pessoas pobres. No entanto, alguns países permitiam um caçador de Bruxa a confiscar a propriedade de sua vítima, nestas áreas Bruxas ricas não eram incomuns. Um número significante de Bruxas eram curadoras ou parteiras. Porcentagens variam, mas na maior parte das áreas, de 20% a 30% das pessoas acusadas de Bruxaria ou curavam ou usavam algum tipo de magia. Pessoas idosas, mulheres solteiras e viúvas eram atacadas com maior frequência.
Por que eram as Bruxas de tipos tão diversos? Por que não conseguimos apontar uma característica que todas as bruxas em todos os lugares dividiriam [em comum]? Porque os Caçadores de Bruxas não estavam perseguindo um grupo real de pessoas. Europeus acreditaram que eles estavam sendo ameaçados por uma conspiração Satânica. Não havia conspiração alguma, então não havia conspiradores reais para eles molestarem. Pelo contrário, eles laçavam qualquer um que apresentasse a menor semelhança com o estereótipo Satanista deles.
Satã garantia a seus seguidores poderes mágicos e grandes conhecimentos - então viúvas, magistas, adivinhos, curandeiros e intelectuais eram acusados. Satã era o pai da heresia - então Pagãos, Cristo-Pagãos e Cristãos heréticos eram acusados. Satã encorajava qualquer mal, especialmente os sexuais - então gays,  mulheres independentes sexuais, criminosos, mulheres bonitas e "livres" caiam sob suspeita. Todo sofrimento e feiúra eram do Demônio, o que fazia dos velhos, agonizantes e deficientes suspeitos.


*Traduzido por Nion de “Common Questions about the Burning Times” escrito por Jenny Gibbons in: Hall of Remembrance, Summerlands.com

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Crônicas de Bruxaria Urbana: Iniciação de Sarah, pt. 2

por Nion

Tudo ficava cada vez mais escuro, já não havia mais ar, nem batidas de tambor, tampouco calor. Sarah sentia o mundo fechando a sua volta, uma escuridão opressora, Nix, a Noite Eterna, uma das divindades mais primitivas era agora sua única companhia.
            Petrificados pela apreensão e pelo momento de prova, Heitor e Helena assistiam o desenrolar dos acontecimentos distantes; por mais que amassem aquela que se encontrava ali no chão se contorcendo em chagas, nada podiam fazer – era o teste, era a prova pedida pelos deuses e pelos Guardiões. Ainda não era o momento de intervir e talvez o momento nem chegasse.
Na Escuridão Eterna, Sarah agonizava, um gosto férreo inundava sua boca, seu sangue enfurecia em suas veias como se algo quisesse desesperadamente sair. Ela estava morrendo. E ninguém iria ajudá-la. Estava sozinha. Nua e Sem Nome. Filha de Ninguém. Habitante de Lugar Algum. Falhara no teste? Não era sincera como eperava? Talvez sua Sombra tenha a enganado, tão ardilosa e maquiavelicamente que nem ela mesma teria notado.
Já não havia mais tempo, já não havia mais matéria, já não havia mais vida. Do centro da escuridão, uma luz surgia, bem longe, mas Sarah mal podia avistá-la. Um nome lhe veio à mente: Aldebaran. Por breves instantes Sarah tentou abrir os olhos e parecia estar no meio de um salão, estava coroada como uma rainha num trono tão brilhante como o ouro e tão escarlate como as maçãs da Ilha Sagrada. Estava vestida de tecidos tão puros, tão finos, que pareciam sua própria pele. Uma voz ecoou por todo salão:
-Lembra-te de onde veio, ó Princesa. És tu. Foste tu. Quando a Grande Guerra abateu sobre nossa amada terra, tu foste incumbida de não deixar nossos conhecimentos e nossa sabedoria sucumbir e virar pó diante do Tempo. De ser sufocado por entre as ruínas deste Império perdido por entre as estrelas. Foi tu juntamente com os quatro Grandes Reis e Rainhas, soberanos das Estrelas Reais, enviados para uma terra azul e doce como o Primeiro Filho. E levaste convosco vossos mais preciosos servos e quando lá chegaram ensinaram aos homens e mulheres daquelas terras os segredos da feitiçaria. Lembra-te quem fostes.
E durante pequenos instantes, o espírito de Sarah viajou pelo tempo e espaço, em terras esquecidas, consumidas pelo mar, em vilas abandonadas consumidas pelo fogo, e os rostos a encaravam diretamente e Sarah era todos eles.
Uma vez bruxa sempre bruxa. Pensou com espanto. Depois de tantas visões caóticas, Sarah sentia frio, sua alva pele estava exposta a ventos cortantes, estava numa floresta deserta, com arvores imponentes e fadas a espiá-la sorrateiramente. Pra onde iria? Andou sem rumo até que avistara um cavalheiro que lhe estendeu a mão, e lhe cobriu o corpo. Sarah perguntou quem ele era e ele disse apenas:
-Sou você.
Não eram momento para enigmas, mas Sarah realmente sabia no fundo o que estava acontecendo, sentiu um arrepio avassalador, como se algo muito importante estivesse para acontecer. O cavalheiro a colocou num cavalo e disse que a levaria de volta pro mundo dos homens.
E cavalgaram pela floresta e depois por planícies e continuaram por desertos e pântanos. Chegaram por fim a uma caverna abaixo de uma montanha cujo topo se perdia de vista em meio a brumas. Dentro da caverna havia um templo, antigo e rústico. Em suas paredes havia sigilos ininteligíveis por Sarah. Ao fundo avistou duas sombras do que parecia ser uma mulher e um homem, e uma voz lhe disse que era chegado o momento de renascer.
Estavam ali, em sua frente, a Deusa e o Deus da Magia Antiga, porém quanto mais próximo ela chegava Deles mais suas faces lhe tornavam familiares. Quando chegou bem perto viu que quem estavam ali era Heitor e Helena, que sorrindo lhe estendia as mãos. Ela havia passado no teste, os ritos se seguiriam conforme a Tradição. Helena a abraçou e beijou-lhe a face dizendo:
- Seja três vezes bem vinda, Filha dos Antigos. Somente aqueles que renasceram podem adentrar o Círculo de Pedras Antigas.
Heitor lhe beijou os lábios macios e carnudos, um beijo de carinho e ternura e lhe disse:
- Filhas das Estrelas, passara no teste. Os Antigos te aceitaram de volta. Receba a coroa de tua realeza – e, posicionando-se atrás de Sarah, colocou uma corrente de pura prata com um pentagrama em volta de seu pescoço.
Helena a levou até o altar, pegou um jarra de vinho e o verteu lentamente no cálice sagrado instruindo Sarah a fazer o juramento. Sarah diante do cálice disse:
- Assim como o vinho escoa para este cálice, diante do sangue do Nosso Amado Senhor, pelo êxtase e pela uva, que o meu sangue esgote-se de meu corpo se algum dia eu trair meus Irmãos da Arte. – Sarah então bebeu do cálice.
Heitor pegou seu athame e abençoou o pão, e instruiu Sarah a fazer o juramento. Sarah diante do pedaço de pão disse:
- Assim como o athame corta o pão, diante do corpo de Nossa Amada Senhora, pela fertilidade e pelo grão, que o meu corpo seja dilacerado se algum dia eu trair meus Deuses da Arte. Após o juramento Heitor disse para Sarah:
- É valido e sincero o juramento que acabara de fazer diante de teus irmão e deuses?
Sarah acenou com a cabeça e disse sim e Heitor continuou:
- Confirma os seus votos, nesta vida, sabendo que seu juramento ecoará em suas vidas futuras?
Sarah consentiu com a cabeça e disse sim novamente; diante da confirmação Heitor estendeu as mãos em direção de Sarah e disse:
- Eu te confirmo, És uma Filha das Estrelas, do Sol e da Lua. Estás agora a serviço dos Antigos. Mas saiba que este não é o final, mas apenas o começo de tua jornada.
E Sarah foi iniciada nos Antigos Mistérios sabendo que a Iniciação não era o final de sua caminhada, mas apenas o começo de sua vida como uma Bruxa.


Licença Creative Commons
Crônicas de Bruxaria Urbana: A Iniciação de Sarah, pt. 2 de Nion é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.