quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sobre Pontos de Vista


Gostaria de dizer algumas palavras sobre o post Classificando a Bruxaria que acabou recebendo uma crítica ofensiva que não merece mais ser exposta.
Não foi minha intenção abordar "conceitualmente" o tema, pois tal empreitada me obrigaria invariavelmente a adotar um determinado ponto de vista de uma tradição específica pelo qual julgaria a validade e/ou autenticidade das demais de acordo com tal visão; postura esta adotada pelo autor do artigo original que deu a base pra o meu texto e, ele tomou, o que quis evitar a todo custo, um discurso discriminatório e agressivo.
Propus-me então analisar o tema da forma mais material e impessoal e menos romântica e idealizada o possível, porém (paradoxalmente à defesa do primeiro parágrafo) não me isento da inevitável tendência de autores impregnarem suas obras, num grau ou outro, com sua própria ideologia; e fica bem claro pelo nome do blog que minha ideologia é, indubitavelmente, a da Bruxaria Moderna (Wiccaniana) e de um discuro não eurocentrista.

Bruxaria: Um Passado Envolto em Brumas

A Bruxaria é um assunto muito, muito controverso e historicamente discutível, felizmente ela não possui um livro sagrado para ser usado com única verdade e tudo o que sempre nos chegou sobre ela foram relatos, fragmentos históricos e tradições (familiares ou de "supostos" covens/grupos) esparsas, sempre com a possibilidade de terem sido alterados por quem os descreveu/conservou por causa do onipresente fantasma etnocêntrico ou “religiosocêntrico”. Como todos os esclarecidos, creio que o aspecto ritualístico das antigas bruxas e bruxos seja realmente um enigma do qual possuimos menos peças que do que a maioria gostaria de admitir, por estas práticas não serem passadas a escrito, mas oralmente. A base dos nossos rituais atuais tem a ver, sobretudo, como a forma de nos inspirarmos nas culturas arcaicas e de nos comunicarmos com as Entidades Antigas. Ninguém possui o conhecimento, depois desses séculos e de tanta repressão cultural de uma sociedade contra a outra (principalmente no que se refere aos celtas) e, após, da repressão religiosa massiva da Igreja, tal como o praticavam, embora existam pessoas que guardaram tais segredos, sem que estes mesmos tenham sofrido grandes influências de outras tradições transmitindo-os de família para familiar ou de Mestre para Iniciado; mas mesmo assim estes casos são relativamente raros. Desculpem se sou um pouco cético neste ponto e não acredito, ao contrário de muitos (incluindo Gardner), em linhagens de bruxas intactas pelo tempo... Sabemos ser isso uma utopia e uma tentativa - desnecessária - de querer impor à bruxaria uma característica arcaico-contínua no bom e velho estilo de que "o mais velho é sempre mais verdadeiro". Sinceramente, não precisamos reivindicar uma Mítica Era de Ouro inexistente e um passado histórico material para legitimar nossas crenças, ou temos fé ou não temos e quilos e mais quilos de "historicismos" não mudará este fato.
Enfim, pontos de vistas são pontos de vista e ninguém tem o direito de dar a última e derradeira palavra. As pessoas devem ser livres para seguirem o que suas consciências lhes orientarem, pois afinal de contas, foi este mesmo espírito de liberdade de escolha e pensamento que nos permitiram – neopagãos – a nos afastarmos dos conceitos dominantes dos espectros judaico-cristãos, patriarcais e materialistas da sociedade ocidental.

"Não há fatos, apenas interpretações." Nietzsche.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Classificando a Bruxaria



Este artigo está desatualizado e necessita de revisão, para que fique conciso com as novas abordagens da bruxaria deste autor que vos escreve.






Muitos já devem ter percebido que a palavra “bruxa” pode se referir a uma miríade de práticas e crenças tão diversas e até mesmo antagônicas que pode ser muito vago e sem sentido usá-la sem algum tipo de adjetivo que a classifique. Aqui está um lista de diversas formas de bruxaria tomando como ponto de partida (mas não limitado-se) a classificação pessoal de Isaac Bonewitts. Observe que várias dessas categorias são capazes de sobreposições e/ou de serem fundidas numa prática pessoal.


Formas de Bruxaria Histórica

Bruxaria Antropológica (Anthropologic Witchcraft)
Qualquer coisa que um antropólogo chame de "bruxaria", geralmente se referindo a um ou ambos os seguintes significados:
1. As práticas (reais ou supostas) de usuários de magia independentes da classe sacerdotal dominante que são suspeitos de, pelo menos, algumas vezes usar sua magia fora de suas normas culturais aceitas.
2. Uma condição interior, o uso de um poder sobrenatural/psíquico para práticas de malefícios sem o praticante necessitar de rituais ou sortilégios (a necessidade de objetos para a magia seria classificada antropologicamente de feitiçaria).
 
Bruxaria Antiga (Ancient Witchcraft)
São as formas de bruxaria protopagãs praticadas nas sociedades antigas, durante o período histórico denominado Idade Antiga, sobretudo aquelas praticadas nas sociedades mesopotâmicas, greco-romanas e outras da Europa e do Oriente Próximo. Suas fontes de estudo são principalmente os mitos e relatos gregos, mesopotâmicos  e  até mesmo o Antigo Testamento da Bíblia. A Bruxaria Arcaica, como base substancial de todas as formas póstumas de bruxaria, pode ser definida como um culto de natureza marginal e de cunho xamanístico às determinadas divindades (muitas vezes do submundo e/ou da magia) aliada a prática de feitiçaria; exatamente por se manterem a margem das normas culturais e religiosas vigentes de sua época, estas práticas não eram vistas com bons olhos pela sociedade. As bruxas mais famosas desta categoria são as gregas Circe e Medeia.

Bruxaria Criminal (Criminal Witchcraft)
A “Bruxaria” conceitual, originalmente concebida por aqueles que usaram o termo primeiro: a suspeita ou o uso real de magia para fins negativos - em outras palavras, malversação mágica o que incluem práticas diversas como as artes necromanticas, manipulação de venenos, lançamento de maldições, etc.

Bruxaria Herética (Heretic Witchcraft)
É um conceito distorcido, uma forma imaginária de culto de adoradores do Demônio inventado pela Igreja medieval em sua luta contra o paganismo. Era dito que o culto era composto de pessoas que adoravam o Diabo Cristão, em troca de poderes mágicos que eles usavam para se beneficiar e prejudicar os outros. Atualmente sabemos que nada disso é verdade, que os cultos de bruxaria se concentravam em divindades pagãs e suas práticas nada se pareciam com as que a Igreja medieval cunhou no ápice de seu exagero e imaginação fértil.


Formas de Bruxaria Contemporânea

Bruxaria Clássica (Classic Witchcraft), a.k.a. Curandeirismo (Cunning Craft)
São as práticas das pessoas referidas atualmente como “bruxas de vilarejo” ou “curandeiras” que muitos bruxos modernos pensam que foram as “bruxas originais”, mas, que são mais propriamente conhecidas como os homens e mulheres sábias, muitas vezes atuando sob uma espiritualidade mesopagã. Estas pessoas raramente eram chamadas de "feiticeiras/bruxas" (pelo menos em sua frente). As “pessoas sábias” geralmente recebem seus conhecimentos através dos pais ou de entidades espirituais. Estas pessoas são especialistas em obstetrícia; magias de curas; uso de ervas e remédios populares; poções do amor e venenos; adivinhação; lançamento de maldições e bênçãos. Bruxas Clássicas continuam a existir até hoje, em números cada vez menores, principalmente em vilarejos remotos e cidades pequenas e entre os ciganos ou outros grupos nômades.

Bruxaria Hereditária (Hereditary Witchcraft)
As práticas e crenças daqueles que afirmam pertencer (ou ter sido ensinado por membros) de famílias “undergrounds” que supostamente eram paleo ou mesopagãs por vários séculos na Europa e/ou nas Américas, usando sua riqueza e poder permanecer viva e secreta. A maioria esmagadora das pessoas que se dizem bruxos hereditários está simplesmente mentindo ou foram enganados por seus professores. Bruxaria Hereditária também é referida como Bruxaria de Tradição Familiar (Fam-Trad Witchcraft) ou mesmo Bruxaria Genética (Genetic Witchcraft). Estes últimos termos são utilizados por aquelas pessoas que acham que devem reivindicar uma bruxa como uma antepassada para ser uma bruxa hoje ou que pensam que tal ascendência "prova" elas serem melhores bruxas que aquelas sem tal ascendência.

Bruxaria Étnica (Ethnic Witchcraft)
Praticamente qualquer prática de "bruxaria" de origem não européia. Referem-se aquelas pessoas que usam magia, religião e métodos alternativos de cura e manipulação da realidade em suas próprias comunidades e que são genérica e inadequadamente chamadas de “bruxas” pelo termo culturalmente correto ser desconhecido pelo observador.

Bruxaria Tradicional (Traditional Witchcraft)
Um termo muito vago e abrangente, muitas vezes usado pelos concorrentes de Gardner  e outras pessoas alegando que suas práticas seriam mais velhas e mais autênticas do que a Wicca.
Geralmente por Bruxaria Tradicional, entende-se tradições mágico-espirituais marginalizadas pelo senso-comum envolvendo feitiçaria. Os chamados "Bruxos Tradicionais" são os portadores destas tradições, e o são, por estarem de acordo e em harmonia com os conceitos que formam a tradição. Embora haja muita confusão, a bruxaria tradicional não é exclusivamente familiar.
As práticas referidas aos Mistérios da Antiga Fé se referem às práticas pagãs, mágicas, feiticeiras e de ensinamentos místicos em sua maioria de origem européia que foram passadas em sucessão (raramente) ou resgatadas através de fragmentos desde pelo menos a última metade do Século XIX. As práticas referidas como Bruxaria Tradicional são variadas e de formatos diversos, de formas simples de folk magick (magia popular) e conjurações à rituais cerimoniais mais elaborados (se aproximando da Wicca). Embora se costume ressaltar a diferença entre Bruxaria Tradicional e Bruxaria Moderna (Wicca) é inegável as influencias desta última na forma como algumas correntes tradicionais se apresentam atualmente. Como exemplos de Bruxaria Tradicional temos a Stregheria, a tradição Feri, a  Bruxaria Tradicional Basca, etc...


Bruxaria Moderna (Modern Witchcraft) ou Wicca
Conhecida também por Bruxaria Neopagã, a Bruxaria Moderna, ou Wicca como veio a ser conhecida mais tarde, iniciou-se com Gerald Gardner no final dos anos 40 e 50, com base em seus contatos com um suposto coven clandestino britânico de bruxas pagãs chamado “New Forest”. A Bruxaria Moderna consiste originalmente numa religião de mistérios de caráter iniciático, sua prática é uma (suposta) reconstrução de um culto mágico-religioso antigo de bruxaria, complementado por: Alta-Magia, magia e folclore céltico-britânico e outros materiais arqueológicos e histórico-literários. Após Gardner terminar de compor, expandir e/ou reconstruir os ritos, leis e outros materiais, as cópias de sua obra caíram na mão de inúmeros outros que então reivindicavam o status de Tradição Familiar e/ou Bruxos Tradicionais e começaram novas religiões por conta própria ou remoldaram (muitas vezes à maneira gardneriana) antigas formas de cultos. A Bruxaria Moderna em sua forma original ficou conhecida como Wicca Gardneriana ou Bruxaria Tradicional Britânica para confundir ainda mais os termos e dela nasceram miríades de tradições wiccanianas por vezes muitos distantes dos moldes gardnerianos.

bruxaria-com-b-minúsculo
Tradicionalmente, bruxaria com o b minúsculo é uma forma de feitiçaria, com enfoque em encantamentos e divinação. Este tipo de praticante alega não estar praticando nenhum tipo de culto/religiosidade, mas um tipo de arte mágica (espiritualizada).


Variações da Bruxaria Contemporânea

Bruxaria Verde (Green Witchcraft)
Baseada em tradições familiares, enraizada em práticas célticas e céltico-ibéricas, aborda elementos da Bruxaria Clássica, neopaganismo e correntes religiosas dominantes. Os praticantes podem invocar tanto as divindades pagãs, quanto entidades cristãs (santos, anjos, etc). Os antigos feriados celtas são normalmente observados dentro do contexto social atual (Natal, Páscoa, Dia de Ação de Graças...). A Deusa e o Deus são identificados como femininos e masculinos em equilíbrio e como um só e há a ênfase do trabalho com os Elementos como extensões da divindade. A denominação Verde advém do fato de este tipo de bruxaria estar intensamente ligado à magia com ervas.

Bruxaria/Wicca Diânica (Dianic Wicca/Witchcraft)
1. Historicamente, um postulado culto medieval voltado à Diana e/ou Dianus, originário das idéias de Margaret Murray.
2. Termo usado por algumas bruxas neopagãs para se referir à sua concentração de culto na Deusa como mais importante do que o Deus, uma vez que sua visão henoteista defende que o Deus nasceu da Deusa.
3. Termo usado por algumas bruxas feministas, especialmente aquelas que são separatistas, para descrever as suas práticas e crenças.

 Bruxaria Feminista (Feminist Witchcraft)
Várias correntes de bruxaria monoteístas ou henoteístas iniciadas desde o início dos anos 70, influenciadas por Z. Budapest ou O Manifesto W.I.T.C.H do New York Redstocking ou pela comunidade Women's Spirituality Movement. Em parte um subproduto da Bruxaria Neopagã, com divindades masculinas botadas completamente para fora da religião e, em parte, um conglomerado de covens independentes e ecléticos de inclanações feministas. As religiões geralmente envolvem a adoração somente a Deusa sincrética (que é todas as deusas) e usam-A como uma fonte de inspiração, poder mágico e crescimento psicológico.

Bruxaria Feérica (Fairy/Faeri/Faërie Tradition Witchcraft)
São diversas tradições de bruxaria meso e/ou neopagã cuja origem remonta a Victor Anderson e suas revelações visionárias e extáticas. No início ele chamava sua prática de “ciência devocional” e não de bruxaria. Suas crenças e práticas, nitidamente ecléticas, incluem principalmente xamanismo africano, paganismo celta e magia huna. Seus ritos e paradigmas se voltam mais ao conceito de êxtase do que fertilidade.

Bruxaria Xamânica (Shamanic Witchcraft)
1. Originalmente, as crenças e práticas dos membros do postulado culto da Beladonna/Deusa da Lua por toda a Europa pré-medieval, remanescentes de bruxas que possam ter sobrevivido à Idade Média.
2.Tradições de Bruxaria que incorporam elementos xamanísticos de transe e cura. Uma das primeiras formas foi criada por Selena Fox combinando Bruxaria com psicologia transpessoal e tradições xamanísticas transculturais.

Bruxaria Eclética (Ecletic Witchcraft)
Se refere às crenças e as práticas daqueles que fusionam diversos elementos de várias tradições e tipos de bruxaria e religiões pagãs. Podem tanto ser considerada uma forma de Wicca, quanto de Bruxaria Tradicional

Bruxaria Gótica (Goth Witchcraft)
Uma mistura de Bruxaria com a Cultura Gótica. Bruxos góticos concentram-se na exploração do lado sombrio da espiritualidade e dos deuses.

Bruxaria Neoclássica (Neoclassic Witchcraft)
As práticas atuais de quem estão consciente ou inconscientemente, imitando algumas ou várias das atividades (reais ou supostas) das Bruxas Classicas/Curandeiras (Cunning Folk) e que se chamam (ou são chamados por outros) de "bruxas".


Formas Não-Pagãs de Bruxaria

Bruxaria Cristã (Christian Witchcraft) e Wicca-Cristã (Christian Wicca)
Bruxaria Cristã mistura conceitos herdados do judaísmo antigo, da Cabala e do gnosticismo cristão à Bruxaria Neo-Clássica e/ou Bruxaria Neo-Pagã (Wicca), criando assim práticas mesopagãs difíceis de classificar.
Aqueles que praticam primeira forma são frequentemente os crentes de que "a bruxaria é apenas uma arte", não uma religião. Dentro da Bruxaria Tradicional os elementos cristãos parecem não sofre tantos preconceitos quanto nas formas de bruxaria neo-pagãs. Aqueles que praticam a segunda são olhados com desconfiança tanto pelo Wiccanianos quanto pelos Cristãos, que estão inclinados a pensar neles como "hereges" em ambas as religiões.

Bruxaria Satânica
Uma forma de bruxaria praticada por alguns satanistas modernos, que tentam fazer tudo o que a Igreja medieval dizia que as bruxas faziam e que fundamentalistas atuais dizem que uma “bruxa” deve ser. O que eles praticam, no entanto é uma forma específica de magia e ritualística herética cristã . Algumas delas realizam missas negras e orgias, cometem blasfêmia e sacrilégio contra idéias e símbolos cristãos. Há alguma pequena sobreposição com a subcultura "gótica" da década de 1980, mas a maioria dos góticos não são satanistas.
 
Fontes Consultadas:
Issac Bonewitts. Bonewit's Essential Guide to Witchcraft and Wicca.

Rosemary Ellen Guiley. The Encyclopedia of Wicthes, Witchcraft and Wicca.