sábado, 27 de novembro de 2010

Crônicas de Bruxaria Urbana: A Iniciação de Sarah

por Nion

  
O círculo estava lançado, e dentro dele, Sarah apenas enxergava a Deusa, Aquela cujo nome não poderia dizer a ninguém em quem não pudesse depositar sua própria vida em confiança. Sarah não reconhecia o corpo de Helena, sua amiga, sua mãe, sua mestra. Os cabelos negros caindo pelas espáduas, os braceletes de prata feitos serpentes envolvendo os braços delicadamente, o corpo seminu deixando transparecer sob a organza toda sua formosura. A Deusa ali estava a esperando para dar-lhe as boas vindas. Ao seu lado, via-se o Rei da Floresta, o Grande Cornudo encarnado em Heitor, Aquele que a instruiu por um período de tempo.
Sarah passara a maior parte de Sua Noite Escura da Alma sendo instruída por Helena. Ela lhe ensinara a respeitar a Deusa que havia dentro dela, a cultuá-la como banhos de rosas, perfumes e respeito. Sarah aprendeu a usar as ervas, as pedras, os instrumentos de uma bruxa. Aprendeu a ouvir o Coração da Terra. 
Mas talvez, o mais importante para Sarah foi ter aprendido a não entregar sua vida a um homem. Foi ter aprendido ela era completa em si mesma, que a solidão existe quando nos afastamos de nós mesmos. Ela amava Lúcio, mas não poderia ser mais sua sombra, a noiva submissa, seu troféu. Não! Estava farta de suas mentiras e suas traições. E tudo isso passava pela cabeça dela, naquele instante, antes de entrar no círculo.
Sarah aprendeu a reconhecer o desejo dos Deuses, aprendeu formas de lutar por Eles e por sua nova família, mas, como Heitor um dia lhe disse:
- Os antepassados deste clã sempre acharam mais sensato viver para os Deuses que morrer por Eles, minha pequena, sempre se lembre disto.
Quantos pensamentos passavam-lhe pela cabeça, quantas lembranças. Não estava se sentindo muito bem, fora instruída para jejuar desde o por do sol do dia anterior e já se passavam mais de vinte quatro horas que ela não comia ou bebia nada que não fosse pão e água. Seu jejum não era apenas de alimentos, ela também não podia se relacionar sexualmente nem conversar com quem quer que fosse. Estava fraca, abatida, cansada do silêncio. As batidas de tambor vindas do escuro em algum ponto dentro do circulo a fazia enjoar ainda mais, o cheiro aveludado de incenso, cuja mistura de ervas era-lhe desconhecida fazia apenas fomentar sua náusea. As sombras dos outros membros do clã. As sombras de seus próprios pensamentos.
Não havia mais tempo, o Cornudo estava já estava ali, na sua frente. Sarah sentia algo diferente no olhar de Heitor. Seus olhos estavam intimidadores, como se ela fosse sua inimiga, uma estranha. Ele aproximou-se mais, sacou seu athame, e, apontando contra seu peito disse:
- Estiveste conosco por todo este tempo; mas ainda não te conhecemos por inteira. Muitos são os nossos inimigos, aqueles que querem ver nossos corpos jazidos no esquecimento da terra fria. Muitos são aqueles que querem extinguir deste mundo nosso Clã, para escarnecer de nossos antepassados e jogar na lama os nomes de nossos deuses. Querem ver nossas almas a vagar no Abismo mais profundo. Não há mais ocasião para mentiras nem máscaras. Temos que saber agora quem és. Aceitas adentrar o círculo com o coração sincero diante de teus Irmãos presentes, dos antepassados e dos Antigos?
Sarah estranhou o comportamento de Heitor, não era aquilo que haviam ensaiado semanas antes. Um frio correu-lhe pela espinha, e sua mente havia sido invadida por insegurança e medo: quem era aquele homem que a desafia tão rudemente? Como podiam não a conhecer, se mais de treze lunações havia partilhado de sua mesa, bebido de seu vinho, dividido suas lágrimas e seus sorrisos? Como agora ela podia ser uma desconhecida? Como podiam estar falando daquele jeito com ela? E Helena? Porque ficara lá parada com ar condolente enquanto era tratada como qualquer uma? Pensara que tinha uma família.
Antes que pudesse questionar ainda mais, Sarah ouviu uma voz rouca – talvez de Satara – vinda das sombras:
-Ela não é uma de nós! Não a deixem entrar! Não nos contamine com sua carne corrupta e seu sangue amaldiçoado! Não a deixem entrar! Posso ouvir sua alma atormentada! Você não me engana!
Sarah foi se desesperando, estavam a acusando de um monte de blasfêmia, mais vozes vinham de todos os cantos, eles vociferavam, acusavam, intimidavam, diziam que não era uma deles. Seus olhos estavam pesados, sua cabeça, rodando. Não sabia o que fazer... Queria gritar, queria correr, queria o afago de sua Mestra. Mas Helena estava imóvel, inalcançável, indiferente. No auge de seu desespero Sarah gritou com todo o seu ser:
-Eu sou vossa Irmã! Brinquei com vossos filhos! Frequentei vossos sagrados lares. Cultuei vossos deuses! Confiei em vossas promessas! Como me deixam desamparada agora? Lembram-vos de mim!
E o tempo parou. E as vozes pararam. E o tambor parou. E até mesmo a fumaça do incenso parecia suspensa no ar. Sarah ouvia apenas a batida de seu coração e do coração de Heitor. Ele olhou para  ela, sem perder o olhar sério e lhe disse:
- Se é uma de nós – diga-nos a senha.
- Só aprendi uma senha: Perfeito Amor e Perfeita Confiança! É tudo o que me pediram e é tudo o que tenho! – Sarah disse por entre soluços, tentando engolir o choro.
Heitor abaixou o punhal e estendeu-lhe a mão. Sarah segurou a mão ali estendida como da primeira vez que Heitor a encontrou; machucada no corpo e na alma, jogada na lama, humilhada por seu ex-namorado, ferida em seu orgulho. Sarah não conseguiu sorri de volta, mas se confortou com sua nova condição. Apenas esboçou-lhe um sorriso. Heitor a puxou para dentro do círculo e lhe beijou no rosto. Ele a levou até o altar caminhando deosil dentro do circulo enquanto os outros bruxos a desejavam boas vindas.
Sarah acalmou-se um pouco, Heitor a postou diante de Helena que, por sua vez, abraçou e beijou-lhe a testa. Naquele momento o ritual iria se cumprir. Helena foi caminhando suavemente em volta de Sarah, dizendo-lhe:
Eu te ensinei tudo o que sabia, ensinei-te como ser mulher e como honrar nossos deuses, mas agora, devo entregar-te aos cuidados do Deus. Você passou pelo primeiro teste! Conseguiu adentrar no templo! Mas isso não é garantia de que tornarás uma de nós! Você, que foi até agora Sarah, terá que morrer se quiser ser chamada por nós de Irmã! Abandonar sua vida mundana se quiser andar pelos outros mundos. Se livrar de suas dúvidas se quiser seguir os Antigos. Livra-te de teu nome, livra-te de tuas vestes. Você está pronta?
Sarah despiu-se, estava completamente nua e não mais tinha um nome. Heitor pegou o cálice que repousava sobre o altar, fez um sinal para uma das noviças se aproximar trazendo um frasco obscuro e enigmático. Ele abriu o frasco e despejou seu conteúdo no vinho:
- Se tiverdes pronta, toma-te este cálice entre tuas mãos e beba-o sem arrependimentos. Este vinho foi maculado pelo néctar da cicuta. Se tiverdes sido sincera desde o começo de tua jornada, e estiveres aqui para o serviço de nossos deuses e nossos irmãos, renascerá. Se pelo contrário for ti uma exploradora e tem estado conosco apenas pelo poder e posse daquilo que não lhe pertence, então que morra em agonia ou retira-te e volte para o exílio de onde a resgatamos! Escolha o teu destino, mas escolha bem, pois não poderás voltar atrás. Se continuar e renascer, não poderá voltar a fechar os olhos do espírito. Se continuar e morrer, não regressará, pois não há mortos que volte para o mundo dos vivos. Se desistir, será como se morresse em vida depois de tudo o que lhe foi mostrado.
Nua e Sem Nome, Ela tomou o cálice por entre suas mãos e não hesitou nem um segundo, sorveu todo o conteúdo do Cálice Sagrado, que representaria ou o útero de sua glória ou o túmulo de sua vergonha.

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* Esta crônica não possui relação alguma com o filme The Initiation of Sarah (1978) dirigido por Robert Day, servindo este apenas de inspiração para o título.



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